quinta-feira, junho 02, 2016

Estes asteriscos e as letras pequenas ...

... dos contratos que nos surpreendem sempre.

O texto original da renovação do contrato era tão bom, e vai daí que tive que me sujeitar a asteriscos. Também não vou embirrar com um ou outro *. O que era assim:
____

Renovação



De acordo com os termos definidos a 1 de Junho de 1996, pelos outorgantes do contrato ainda em vigor, nomeadamente nos versículos  4 a 7 do capítulo 13 dos Coríntios:
“O amor é paciente, o amor é bondoso. Não inveja, não se vangloria, não se orgulha. Não maltrata, não procura seus interesses, não se ira facilmente, não guarda rancor. O amor não se alegra com a injustiça, mas se alegra com a verdade. Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.”
E ainda pelos termos declarados “até que a morte vos separe”, “cenas na alegria e na tristeza” e “na saúde e na doença” e outros que tais, comprometem-se os mesmos outorgantes a renovar os votos por novo período de duração igual ou superior a 20 anos.
Mais declaram os outorgantes, que não constituem precedência para este novo período, os factos ocorridos na dupla década que antecede a assinatura desta renovação, a saber:
Trocar de casa com a periodicidade com que se troca de carro
Garantir descendência nos primeiros sete anos de vigência à razão de uma unidade por cada período de três anos
Transporte de uma parcela da casa superior a 70% sempre que se vai de viagem mesmo que seja por uma noite
Outros
Por serem a melhor escolha nestas bodas_sai_me_da_frente_que_já_não_te_posso_ver_nem_pintado declaram os outorgantes ser por sua livre vontade a renovação do supra citado contrato celebrado pelos mesmos em 1 de Junho de 1996.

1º Outorgante, benovente e cônjuge                              

______________________________                              

2º Outorgante, benovente e cônjuge

 _______________________________  


Lisboa 1 de Junho de 2016

____
Ficou assim:


quarta-feira, maio 11, 2016

FMI - Futebol, Malas e Imbecis

À semelhança da grande maioria das mulheres, Portugal tem um relacionamento sério com malas. Perde-se de amores por elas.
Começou com Linda De Suza e a sua "Valise en carton sur la terre de France". Já lá vão tantos anos, tanta valise. Depois, há um par de anos atrás, Filipa Xavier - Pepa e a sua Chanel fizeram furor nos media - redes sociais incluídas.  Finalmente, desde a semana passada e a propósito deste emocionante final de campeonato, um responsável Benfiquista insinuando incentivos financeiros oferecidos pelo Sporting para os adversários do Benfica lhes roubarem pontos, resolveu escrever no Twitter "O jogo da Mala segue para a Madeira".
Esta tradição lusa no que a malas diz respeito, configura um clássico caso de excesso de bagagem, o que em qualquer lowcost dá direito a encargos que ultrapassam o valor da própria passagem.
A Linda de Suza tinha mau gosto mas era esforçada, a Pepa tinha bom gosto e foi descuidada, o responsável Benfiquista limitou-se a ser um responsável de um clube de futebol na época 2015 - 2016. E palavra de honra que se sofresse de vergonha alheia no futebol, teria vergonha da maioria dos dirigentes e responsáveis do Benfica e do Sporting durante este ano. a saber João Gabriel, Pedro Guerra, Rui Gomes da Silva pelo Benfica. Bruno de Carvalho, Inácio e Octávio Machado pelo Sporting.
Meus senhores:
Vivo numa família onde há sportinguistas e benfiquistas. Eu sou do Benfica, a minha mulher do Sporting, os meus três filhos são dois do Benfica e um do Sporting. Se cá em casa fossemos 10 milhões, e mantendo a proporção, seríamos 6 milhões do Benfica e 4 milhões do Sporting. E teríamos alguns 2 milhões de cães. Todos teimosos.
Gosto de ir ao futebol em família, todos juntos ou alguns juntos conforme as possibilidades, mas gosto sempre. Vou à Luz e a Alvalade e torço sempre pela equipa da casa exceto quando jogam uma com a outra e, nesse caso, torço sempre pelo Benfica. A seguir ao Benfica, o Sporting é o meu clube do coração.
Ao longo destes anos todos esforcei-me por ensinar os meus filhos a respeitar os rivais, a defenderem o seu clube, mas nunca retirando valor ao clube adversário.  Insisti no respeito mesmo quando fomos a um derby vestidos a rigor e nos aconselharam a esconder os símbolos do clube visitante e ainda nos sugeriram que víssemos o jogo em bancadas separadas do estádio porque estávamos vestidos de Benfica e de Sporting. Ensinei a orgulharem-se do seu clube sem agredirem o adversário porque afinal de contas os dois clubes têm história e valor suficiente para serem motivo de orgulho dos seus adeptos. E este ano, palavra de honra, merecem estar a disputar o campeonato até ao último minuto, até à última gota de suor. Já festejei e ensinei a festejar campeonatos dos adversários e foi assim desde 2000. Festejamos dois campeonatos do Sporting e quatro do Benfica. Juntos.
Meus senhores parabéns. No que a esta casa diz respeito, vocês tornaram quase impossível a pacífica convivência entre rivais. Acusam, insinuam, insultam, desvalorizam, enxovalham e desrespeitam os vossos adversários como se esse fosse o único caminho para o almejado título para a imensa glória. Se o tema fosse religião, e por vezes até se confunde, o João, o Pedro, o Rui, o Bruno, o Augusto e o Octávio acabariam alistados nas mais radicais facções da sua religião, almejando fazer-se explodir em território alheio. Por mim, meus caros, podem explodir a vossa visão tolhida do que é o futebol e do que é ser do Benfica e do Sporting.
João Gabriel, Pedro Guerra, Rui Gomes da Silva, Bruno de Carvalho, Augusto Inácio e Octávio Machado, às 19 horas de Domingo saberemos quem é o campeão e eu sinceramente espero, que cada um de vós, seja de alegria por ser campeão, seja por desespero pelo adversário ser campeão, bata com a cabeça numa porra de um teto baixo qualquer e fique com uma perturbação de memória que vos faça acordar na pele do mais ferranho adepto do clube rival.
Cá em casa, quem quer que seja campeão, haverá lugar a festejos e vamos todos buzinar por essa Lisboa fora e gritar bem alto "Campeões, campeões nós somos campeões".
Caso não tenham a tal perturbação de memória, lembrem-se, daqui para a frente, que o futebol não é sobre insultar o adversário, é sobre valorizar e festejar o nosso clube. Há muitas famílias como a minha em que benfiquistas e sportinguistas vivem juntos, comem juntos e amam-se. Deixem-se de merdas e cresçam.
Ao campeão desta época. Parabéns.

domingo, março 20, 2016

Cavaco para o Planalto

Em conversa com um brasileiro há muito residente em Portugal, perguntei-lhe sobre estes tempos de conturbação no Brasil. Ele puxou da fácil definição: "O Brasil é um Portugal sem travões". Faltou-lhe dizer que Portugal é um Fiat 500 e o Brasil um Cadillac. Ambos com fugas de óleo, folgas na direção, consumos exagerados e a precisarem de ir rapidamente à oficina, mas a ostentação Brasileira contrasta com a modéstia Lusa.
Nos últimos anos assistimos em Portugal ao mais cinzento período de que tenho memória. Um condutor obcecado pelo consumo, e ao seu lado, no lugar do morto, a figura pálida de um passageiro que alterna entre o dormir e o babar-se durante toda a viagem. Durante esses tempos de governo a preto e branco e de presidência a cinzento claro e escuro, muitos Portugueses contestaram a presença daqueles nos lugares da frente de Portugal. Acontece que, quer um quer outro, foram colocados pelos mecanismos previstos pela nossa democracia e saíram no final dos respetivos mandatos. Hoje, ao volante, temos um condutor que guia de outra forma, contestado por não ter sido o mais votado, lícito por ser escolhido pela maioria dos deputados. Ao seu lado a figura é um atento co-piloto, feito às cores e adepto confesso de afetos. Se o Fiat faz o sinuoso trilho que tem pela frente é uma interrogação para a qual não há certezas, mas caramba, pelo menos o bólide anda. As fugas vão sendo diagnosticadas, algumas descobertas e dessas , algumas são resolvidas com a lentidão de uma oficina pouco ágil e habituada à morosidade da justiça.
No Cadillac do Brasil, espanta-me a possibilidade do condutor ser retirado à força do volante. Há mecanismos previstos para que o presidente seja afastado da presidência, mas a força nunca será um deles. A corrupção devia ser o alvo a abater e os brasileiros andam entretidos em batalhas de rua entre apoiantes da corrupção e apoiantes da corrupção alternativa à corrupção. Diz-se que um povo tem os políticos que merece, mas, palavra de honra mesmo perdendo 7-1 com a Alemanha, o Brasil não merece estes políticos. Nem sei o que diga sobre o que se assiste do lado de lá do oceano. Lula já foi nomeado e suspenso e suspendido na suspensão da nomeação umas trezentas vezes, a justiça participa em manifestações, Lula questiona-se sobre o paradeiro das mulheres de grelo duro e as  pessoas não podem andar de encarnado porque podem ser alvos de violência. Esta é que me deixou de rastos. Eu até pensei que fosse uma espécie de questão futebolística como aqui acontece. Como ser arriscado ir vestido de Benfica para o meio da JuveLeo. Mas não. É só litigio da cor da corrupção. Ainda por cima, num país em que muita gente consegue na mesma indumentária juntar verde e amarelo, com que moral resolvem espancar quem anda de vermelho? Tenham paciência. Com as combinações de cores que se vêem por ali eu acredito que haja gente que só à pancada. Mas por causa do vermelho ?
Eu acho que a solução óbvia é pegar no nosso ex presidente e enviá-lo para o Brasil. Cavaco jamais perguntará "Onde andam as mulheres de grelo duro?" . O máximo que Cavaco pode perguntar é "Aqui não há bolo rei mesmo que seja duro?". Depois Cavaco não é corrupto. Pode ter amigos que são, mas esses têm a mania de fugir para o Brasil, portanto, para Cavaco, ir para o Brasil não é mais que ir visitar amigos. Por último Cavaco é muito amigo do Carnaval, já desde o tempo em que era primeiro ministro e portanto aquilo do País do Carnaval era como peixe na água.
Eu sinceramente acho que ia ser bom para ele, para os Brasileiros e já agora para nós. Assim do ponto de vista do cinzentismo exibicionismo do bolo alimentar.

segunda-feira, janeiro 25, 2016

Só eu sei porque não fico em casa

Quando ontem, as televisões anunciaram quase em uníssono que não haveria segunda volta, milhares de Sportinguistas foram para o Marquês festejar o título. "Contra tudo e contra todos, somos campões. E logo à primeira volta."


quinta-feira, novembro 12, 2015

Help On Line

Aníbal:
Para quem "nunca se engana, raramente tem dúvidas e não perde mais que 5 minutos por dia a ler jornais", está a parecer demoradito encontrar a solução. Como eu sou boa pessoa, resolvi dar algumas sugestões que eventualmente possam estar a escapar-te:
- partir o país em dois países com duas maiorias absolutas diferentes e logo se via se a Comporta do Ricardo Salgado ficava na Coelhoportazâmbia ou na Costosousamartinica
- nomear o José Sócrates para primeiro ministro, porque está habituado a ambientes diferentes e é um político que, sendo do PS, tem a mania de fazer coisas à moda do PSD
- dividir isto em semanas e fazer uma espécie de timesharing da governação - o Coelho governava nas semanas pares, o Costa nas ímpares e havia umas 10 semanas, ali por alturas de férias, para dividir entre o Portas, o Jerónimo e a Catarina.
- decidir isto através da marcação de grandes penalidades
- decidir por um governo 24x7 . Numa semana o PS assegurava a governação das 8 às 16 , PSD das 16 às 24 e os partidos mais pequenos faziam as noites. Depois, na semana seguinte, trocavam os turnos. O país está longe de estar bem, pelo que, um governo com os horários dos serviços de urgências, é o mínimo que se espera.
Isto foi só assim num repente, a pensar um bocadinho. Ora o meu amigo, tem tido tempo de sobra para pensar, razão mais que suficiente para fazer a sua escolha. Olha que se isto estivesse nas mãos do Marcelo Rebelo de Sousa, a coisa já estava mais que resolvida. O homem está acordado algumas 20 horas por dia. Vinteeeeee Aníbal, vinte. Ele, quando chegar aos dois anos de presidência, já leva mais horas de presidência acordado que tu.
Nem precisas agradecer, se não gostares de nenhuma destas alternativas avisa-me que eu tento arranjar mais soluções.

terça-feira, novembro 10, 2015

E morreram felizes ...

Este fim de semana fomos ao teatro. No pavilhão 30 do Júlio de Matos. Esse mesmo hospital de muros tão altos para evitar que os loucos entrem lá para dentro. O público obrigado ao silêncio e ao uso de máscara de cirurgia. Esse é o contrato. Não falar e usar a máscara e em troca a liberdade para passear pelas 27 salas onde a peça acontece, correr alucinado atrás dos personagens, escolher que personagens quer seguir, que cenas quer ver. Todas as salas vestidas a rigor num cenário hospitalar de 1949: instrumentos, mobiliário, salas, corredores, personagens, escadarias. Iluminação exemplar, encenação brilhante e boa coreografia. Teatro imersivo dizem, onde não há barreiras entre o espetador e os atores, e que falta fizeram algumas das vezes quando numa correria, numa cena violenta, ou no baile de abertura fazemos parte do próprio espetáculo. A simples história de amor de Pedro por Inês sabiamente enredada com a lobotomia de Egas Moniz é representada duas vezes para que possamos mudar de cenários, personagens, coreografias. A sensação com que fiquei é que ao fim de cinco idas ao teatro teria esgotado tudo o que há para ver naquela peça. O ambiente entranha-se facilmente no espetador e é fácil deixar-nos transportar. Saio divertido e com a sensação de tempo mais que bem empregue.

À saída foi inevitável pensar sobre que outros lugares que não um pavilhão hospitalar funcionariam como cenário para um outro argumento, uma outra tragédia uma outra história de amor. Seria estúpido não o dizer hoje, não o escrever aqui, seria estúpido no dia em que o governo de Passos caiu, não dizer que a assembleia era o outro cenário perfeito para uma outra história. Gritos, birras, poses, egos, semblantes alterados, coreografias, cenas violentas, escadarias, desesperos, choros, alianças, coligações, acordos, amores, disputas, ciúmes, pompas e circunstâncias, manifestações exteriores, manifestações no hemicírculo, assinaturas em salas parlamentares, Pedros, Paulos, Antónios, Catarinas, Jerónimos, Andrés.
Tantas peças podiam ser escritas para este cenário, até histórias de amor. O que hoje aconteceu, e acredito até que os fatos me desmintam, é uma história que pode dar muito certo se o amor ao país e às pessoas for maior que o amor aos umbigos e ao interesse de poucos. Este PS merece  o mérito de ter criado muitas ruturas com outras tantas tradições. A Assembleia é a casa mãe da democracia e nem vou pensar qual é a casa pai, e o que hoje assisti foi a democracia a funcionar. Vejamos quantos amores, quantos ódios e quantos orçamentos aguenta este enredo. Por mim continuo imerso nesta peça com a real esperança dos finais felizes. Já agora, quando falam de Passos perdidos, é disto que se viu hoje que falam não é ?



domingo, novembro 01, 2015

Porque sim

Porque hoje morreu um cineasta Português ... porque em jeito de coincidência hoje me lembro de quem me ensinou sobre Jazz, sobre cinema e sobre a doçura que podemos trazer à nossa vida . La Dolce Vita



terça-feira, outubro 13, 2015

Costa Concordia

Os resultados eleitorais são o que são e sobre eles não vale a pena tecer grandes considerações. O PaF ganhou as eleições sem maioria absoluta e o PS perdeu. Posto isto, Pedro é chamado a Belém e António à comissão política. Pedro promete a Aníbal procurar uma base de sustentação para formar um governo que dure quatro anos, Costa promete ao PS dialogar em 360º para procurar consensos. Pedro teve duas reuniões com António e levou Paulo com ele. António conversou com Pedro, com Paulo, com Catarina, com Jerónimo e com o André. Eis que então começa a surgir a possibilidade de António formar governo com ou com o apoio do Bloco e / ou a CDU.
Este cenário, que não passa disso mesmo, de um cenário está a deixar muita gente nervosa, a desenterrar muitos fantasmas, muito irritada e sobretudo numa excitação descontrolada perto da histeria que lhes está a tirar algum discernimento de raciocínio.
Percebo alguma irritação porque António está a procurar outros consensos enquanto Pedro e Paulo continuam  fascinados pelo umbigo um do outro, pouco mais fazendo que reunir com António em tom de quem anda a toque de caixa para não perderem o comboio. Convém lembrar a estes senhores que ganharam as eleições e que têm um governo e um programa a apresentar e que colocarem-se como espetadores não abona muito a favor deles.
Percebo alguma frustração e desencanto da direita com a coligação, porque votaram num programa da continuidade, e agora Pedro e Paulo querem governar pelo programa do António.
Já o nervosismo com as conversas que António tem à sua esquerda, é-me muito difícil entender.
Alguma vez Aníbal chamaria António para formar Governo?
Alguma vez o PCP faria parte de um governo PS ou apoiaria um governo PS durante toda uma legislatura? Axandrem-se. Nem o PCP cede tanto, nem o PS muda tanto.
Com certeza que não, mas esta possibilidade de, passados 40 anos, a esquerda poder entender-se torna tudo muito incómodo.
Pessoalmente, dá-me um gozo bestial que haja maior entendimento entre os partidos de esquerda e ainda maior ao ver a cara de caso de Paulo e Pedro e o nervosismo disparatado de quem os acha uma escolha razoável.
Também gosto de saber que o PCP e o BE, em pouco mais que uma semana, passaram a fazer parte do arco de governação e que Paulo inventou um novo arco: o arco europeu. Só ainda não percebi qual é que tem maior diâmetro: o da governação ou o europeu?
Só espero que o António seja um tudo nada mais divertido na liderança deste processo, já que parece ser o único com vontade de o fazer. Ao menos que o faça em grande.
A meu ver, o António não é homem não é nada, se na próxima reunião com o Pedro e Paulo não trouxer o TGV e o novo Aeroporto para a mesa das negociações.
E a libertação do preso político.
E o carro eléctrico.
E as novas oportunidades.
A terceira travessia do Tejo não é preciso, porque com o atual diâmetro do arco da governação, basta colocar o CDS-PP no barreiro e o Bloco no Terreiro do Paço. No ministério das finanças por exemplo. 

segunda-feira, outubro 05, 2015

Portugal Capaz

Somos um povo de brandos costumes, do cala e do consente, das Amélias dos olhos doces, das Marias vida fria à espera que a vida lhes dê a oportunidade das Marias Capaz. As mulheres da porrada de todos os dias, da violência, do insulto, do sexo à bruta, da ameaça, das promessas quebradas, dos sonhos desfeitos, das marcas no corpo, das feridas da alma, da vergonha, do medo, da vida desfeita. O que as separa da fuga? O que lhes impede a denúncia? O que as faz reféns? Porque foi só uma vez, porque no namoro ele lhe dizia coisas tão bonitas e a respeitava tanto, porque tem andado a beber, porque a ama daquela maneira tão peculiar e além desse amor não tem outro, porque não tem para onde ir, porque ele ia arranjar maneira de lhe por as mãos em cima, porque ele ia ficar tão desesperado, porque os filhos precisam deles juntos, porque ele está desempregado e nem sequer é violento, porque o que é que os outros iam dizer, porque ia viver do quê, do ar? E até quando? Até ficar sem dinheiro e precisar dele outra vez?
Não, não são elas as cobardes. Em cada uma delas há uma capacidade infinita para sofrer, para amar, para perdoar, e para lá de tudo isso para um dia se tornarem numa Maria Capaz. A cobardia está em cada um deles. Pelo poder da besta, pelas frases de chantagem, pelas promessas quebradas, pelas falsas declarações de amor, pelo medo que as diminui, pelas marcas no corpo e na alma.
Agora preciso de muito cuidado com a figura de estilo porque o assunto é demasiado sério para ser usado como argumento. Faço-o porque abomino a argumentação do medo, da chantagem, das falsas promessas, da vergonha dos outros. Faço-o porque acredito com todas as forças que houve quem tivesse feito escolhas sob um clima criado para condicionar essas escolhas. Faço-o porque de cada vez que ouvi estas frases, me lembrei das Marias Capaz. E ouvi-as ao longo dos últimos meses, ditas pelos nossos governantes.
“Têm duas escolhas, ou manter o caminho que nos trouxe aqui ou voltar aos tempos que vos levaram à desgraça, porque sem nós este país volta ao despesismo. Mas acham que nós gostamos de austeridade? Não fomos nós que a quisemos, foram aqueles que estiveram antes, aqueles que vocês escolheram que nos obrigaram a fazer o que fizemos. Fizemo-lo por amor. Porque mais importante que os nossos interesses é o interesse de Portugal. Olhem para aquela galdéria da Grécia que decidiu que não queria mais austeridade. O que é que lhe aconteceu? Vocês é que sabem. Tanta coragem para eleger um grupo de radicais e olhem como está agora. Debaixo de um novo programa de ajustamento ainda mais duro, comentada pelo mundo e massacrada pelos mercados. É isso que querem? Se for isso, votem nos outros. Querem seguir o rumo que nos tirou do pântano ou embarcar em aventuras para voltarmos a ter a Troika? Quatro anos a por a casa em ordem e agora acham que vamos novamente para a caos? A escolha é simples. A estabilidade e o rigor, ou mais uma aventura que só vai conduzir a mais austeridade. Prometemos que agora não vamos bater, a casa já está em ordem. A partir de agora tenho tanto carinho para te dar. Foi tudo por amor a Portugal.”

Claro que as distâncias têm que ser devidas. Claro que dos 39 % (dos menos de 60% que foram às urnas), muitos houve que votaram na coligação pelas melhores razões. Por acreditarem na ideologia, por concordarem com as propostas, por gostarem dos líderes, por confiança no projeto e nas pessoas. Mas muitos, e estou certo disto, fizeram-no porque o clima do medo, da chantagem, do racional "sem mim não serás ninguém",  resultou. Um dia o meu país, tenho a certeza, há-de ser um Portugal capaz.

quinta-feira, outubro 01, 2015

Aniceto Taxista

Aquilo era demais, parecia uma perseguição. A tal da globalização de que falam com tanto entusiasmo, o infinito leque de oportunidades, parecia existir tão-somente para lhe arruinar a vida. Irra que parecia de propósito. Tudo começou com o clube de Vídeo, e só Deus sabe o quanto lhe custou arranjar aquele 2º emprego. O dinheiro que ganhava a distribuir listas telefónicas não era muito e sempre ganhava mais uns trocos ali no clube de vídeo da zona, horário noturno já se vê. Até às 10 a coisa era animada e entre as 10 e a meia noite aparecia um ou outro cliente com umas preferências mais ousadas. Esses foram os primeiros a desaparecer. A TV Cabo começou com os canais de adultos e em pouco tempo, a freguesia das sessões contínuas começou a rarear. Nem foi preciso esperar muito tempo até o fenómeno se estender aos restantes géneros. Maldita internet. Nem chegou a dois anos para assistir à debandada da mais fiel clientela do aluguer de filmes. O inevitável aconteceu e o clube acabou por fechar.
Mas um homem nunca desiste e já que os filmes estavam na rua da amargura, e as listas telefónicas rendiam pouco, o cunhado era taxista e podia dar-lhe uma ajuda. E assim foi. Às seis da tarde pegava no táxi do cunhado e fazia umas corridas até que o sono deixasse. E ia assim a vidinha até que ao dia em que a firma da distribuição das listas, … enfim, já se sabe. “Agora já não há muito telefone fixo, e mesmo os que têm, espalham-se por vários operadores, e já ninguém usa as listas, pesquisam tudo na net. A bem a bem, só os vendedores de castanhas e as empresas de sondagens em tempos de campanha eleitoral para escolherem amostras representativas…. Não temos espaço para si na empresa”. Tantos anos a carregar listas, escada abaixo escada acima, deixa uma recolhe a velha, tanto degrau tanto papel e, de quando em vez, lá havia um assinante que dava uma ajuda mais generosa. Ora bolas outra vez a net e as novas tecnologias a pregarem-lhe uma partida.
Mas um homem nunca desiste e passou a fazer todo o turno da noite no táxi do cunhado. O dinheiro não era muito mas, palavra de honra que era dinheiro honesto. Pelas conversas que ouvia na praça, lá se ia apercebendo de umas trafulhices que os seus colegas faziam, e dos azares de serviços pequenos depois de horas na fila do aeroporto, e de clientes que estão mesmo a pedi-las, muitos deles nem gorjeta davam. Nada disso lhe interessava, o seu trabalho era transportar pessoas e era isso e apenas isso que fazia, com a simpatia que lhe era possível. As gorjetas que quase sempre recebia pareciam-lhe um sinal de que fazia o que devia ser feito. E logo agora, não é que agora aparecem uns tipos de carros imaculados, todos bem vestidos, muitos deles bem-falantes e educados a transportar pessoas de um lado para o outro. Tudo por causa de uma aplicação vinda, pasme-se o azar do homem, da internet. E ainda por cima o pagamento é feito pela aplicação e o percurso é monitorizado e gravado. Maldita tecnologia. Os colegas já lhe tinham falado daquilo, mas foi ver com os próprios olhos. Sim senhora, carros topo de gama, impecáveis e asseados, com motoristas que pareciam executivos. Aquilo deu-lhe que pensar. E os colegas a quererem fazer a folha aos tais motoristas, tanto mais que havia uma decisão do tribunal que decidia sobre a ilegalidade deste novo serviço. Querem lá ver que a tal da tecnologia lhe ia fazer de novo a folha?

Não, nada disso. É que um homem nunca desiste. Aniceto foi tratar do assunto e desta vez resolveu fazer justiça pelas próprias mãos. Apanhou um desses seus colegas de praça a jeito, e disse-lhe das boas “Tu és mesmo uma besta. Andas com o carro que mais parece uma pocilga, gabas-te dos trajetos mais longos que propositadamente fazes, irritas-te com os clientes que te pedem percursos pequenos, tens uma figura tão cuidada quanto a viatura, insultas quando te dão gorjetas a que chamas miseráveis, diriges-te com palavrões aos outros condutores e conduzes como se fosses dono da estrada.  Achas mesmo que são estes senhores que te estão a arruinar o negócio? Queres bater-lhes e destruir-lhes o automóvel? Achas que a atividade deles é ilegal? E aquilo que fazes aos teus clientes, é o quê? Queres mesmo impedir que eles tenham clientes, nem que seja ao estalo? És tu o culpado do sucesso deles. Vai-te esbofeteando até teres consciência do que andas fazer aos teus colegas que têm brio no que fazem. É que se essas pessoas resolvessem fazer o tipo de justiça que tu fazes, tu, e os outros como tu, iam passar tempos muito duros. Cretino.” 

quinta-feira, janeiro 22, 2015

Bárbara e Manuel

Este casal não pára de surpreender. Desta vez, Carrilho ameaçou publicar na Net fotos de Bárbara. Os tempos que se avizinham não serão fáceis nem para Manuel, nem para Bárbara, nem para todos nós que assistimos passivamente a este enredo que se passeia entre a novela e o Big Brother famosos.
Bárbara é menina para responder à altura, ameaçando também publicar fotos de Carrilho todo nu, o que, convenhamos, roçava o terrorismo. Pelo sim pelo não, o melhor é prepararmo-nos para uma grande jornada de apoio aos protagonistas desta história, pelo que vou começar a comercializar t-shirts adequadas a esta novela, de acordo com as preferências de cada um  :



quarta-feira, janeiro 07, 2015

As Janeiras

O dia de Reis é sempre pretexto para festa rija em Belém. Cavaco ouviu Soares com atenção e ficou incomodado com o recado do seu ante-antecessor. É a consciência. Soares disse-lhe que ele devia reagir à prisão de Sócrates e Aníbal não vai de modas. Ai é? É para reagir à prisão do José, não seja lá por isso e se o homem está preso em Évora, este ano as janeiras são em cante Alentejano. Até a Maria ficou admirada:
- Kant alentejano? É que não fazia ideia. Eu às vezes sinto-me tão burrinha. É das más companhias, só pode.

terça-feira, dezembro 30, 2014

Vende-se

... bateria em muito bom estado. Ofereço um par de baquetas e três aspirantes a "John Bonhan Maria" com fraco desempenho e elevado potencial.
Compra-se: Tampões de ouvidos e ansiolíticos.
Procura-se: Representante para a próxima reunião de condomínio. Os candidatos devem ter elevada competência de comunicação oral e devem estar fisicamente aptos para o caso da coisa dar para o torto. Devem também preparar um dossier com casos de bateristas famosos que, no início de carreira, tiveram problemas com os vizinhos.

segunda-feira, dezembro 22, 2014

A estátua

O melhor jogador do mundo tem uma estátua de alguns três metros de altura no centro do Funchal. Sobre este assunto, Ronaldo afirmou ser apologista das homenagens durante a vida dos homenageados.
Sobre as estátua, e olhando com alguma atenção para a dita, parece-me que o escultor confundiu conceitos. As bolas de ouro que o craque tem, não são aquelas que estão representadas na estátua. A bola de ouro é um troféu atribuído pela FIFA ao melhor jogador do ano.
Cristiano Ronaldo tem uma parede abdominal invejável e bem definida. Mas ao contrário do que seria de esperar, a parede abdominal de CR7 mal se nota na escultura de bronze. Já a pila .... Bem, pelo menos, esta estátua tem duas virtude:
- o mulherio que aprecia a obra de arte, fica com aquele ar guloso que a foto documenta
- Ronaldo acrescentou "apologista" ao seu vocabulário



terça-feira, dezembro 16, 2014

Taxiiiiii .... Uber

A Uber é uma startup genial, cuja existência na Europa se debate com problemas de eventuais ilegalidades e com os anti corpos de interesses mais ou menos instalados.
A ideia é muito simples: um serviço de Taxi, em viaturas topo de gama, em que o cliente, através de uma aplicação móvel, solicita a deslocação para determinado destino. A aplicação, com base na localização do cliente, identifica a viatura livre mais próxima e dá indicação ao respectivo motorista para avançar para o serviço. No final, o pagamento efectua-se por cartão de crédito previamente registado pelo cliente quando instala e parametriza a aplicação. O motorista é posteriormente creditado.
Em cidades como São Francisco, este serviço garante a chegada do motorista em tempos inferiores a dois minutos.
Aqui em Portugal a TAP acabou de estabelecer um acordo com a Uber e oferece, a quem tenha bilhetes com destino a Lisboa, uma deslocação via Uber até determinado limite de valor. Está bom de ver que quem não achou graça nenhuma à brincadeira foram os taxistas da capital, que já prometem protestos de dimensão adequada à gravidade da situação.
Nos dias que correm, existem aplicações que ajudam os seus utilizadores a encontrar voos, restaurantes, a marcar hotéis ou mesmo a encontrar companhia e eis que quando chegamos ao tema do transporte urbano, a coisa provoca a ira de quem está refastelado no mercado. Tratando-se de serviço de aeroporto, mais alto se elevam as vozes de discórdia porque esta é uma praça que, à excepção de alguns serviços para as zonas contíguas à Portela, costuma ser muito rentável para os taxistas.
Pode até ser que, por uma questão legal, este serviço acabe por ficar impossibilitado de operar em Portugal, mas sejamos realistas, a era digital e a globalização é uma vaga imparável e mais cedo ou mais tarde este tipo de serviços acabará por vingar. Veja-se o que se passou com os clubes de vídeo, ou com as lojas de revelação de fotografias. Os que não se adaptaram acabaram por desaparecer.
O mundo está, cada vez mais, orientado à prestação de serviços e só pela diferença e pela inovação se conseguirá ganhar o futuro. E atenção que a diferença pode muito bem significar um apelo à tradição, como provam os mais recentes casos de sucesso do universo das padarias. Pela lei, pela força ou por pressão, não prevejo que se consiga grande coisa.

quinta-feira, dezembro 11, 2014

Parabéns

... ao Manoel de Oliveira pelos 106 anos de idade.

... à MultiOpticas por proibir a entrada do cineasta na sua rede de lojas


segunda-feira, dezembro 08, 2014

Natal aos quadradinhos

Já se sabe que a quadra arrasta consigo toda uma série de eventos, sinais externos da amizade, da solidariedade entre todos. Festas com amigos surpresa, convívios, jantares e almoços de Natal, festas em família, festa da empresas, festa da escola, festa do lar, Natal dos Hospitais, Natal na Prisão e Natal em tudo o que é lugar até que a nossa agenda esteja carregada de festas, convívios e eventos gastronómicos.
Este ano, que é tão especial em tantos sentidos, parecia-me importantíssimo fazer o Natal dos Tribunais. Juízes, advogados, escrivões, oficiais de Justiça, bastonários, arguidos, suspeitos, condenados, ilibados, enfim todos juntos numa grande festa transmitida em directo para todo o país pelas principais cadeias televisivas.
O Campus de Justiça já mostrou não ter condições para uma emissão televisiva com o mínimo de qualidade, é necessário arranjar um outro lugar. Aliás esta questão do campus de justiça tem-me deixado muito intrigado. Muitas vezes, em passeio, passo pelo Campus de Justiça e deparo-me com uma quantidade adequada de restaurantes que claramente têm na existência daquele Campus um dos principais pilares do seu negócio. É normal que assim seja. Acontece com todas os restaurantes que estão nas vizinhanças de uma instalação com significativa dimensão. Perto dos Campus Universitários é normal encontrar bares e restaurantes com nomes alusivos ao contexto: "O Caloiro", "A Tuna", "O Cábula", "Os engenheiros". Então se assim é, porque raio os restaurantes ao pé do Campus de Justiça têm nomes só de restaurantes. Seguem algumas sugestões para nomes de restaurantes da zona:
- O indulto
- O condenado
- O recurso
- O júri (vocacionado para jantares de grupo)
- O ilibado
- Prisão Preventiva
- Hábeas Copos (bar)
- O crime perfeito
-  A defesa contesta
- Perpétua, Preventiva e Domiciliária (para quem queira ter uma cadeia de restaurantes)
- A pena capital (sobremesa com calorias acima do aconselhado, uma mousse com três chocolates a acompanhar uma fatia de cheese cake)
- O Super Juíz (uma espécie de super chefe)
- O Juíz (uma marisqueira em que os martelos de marisco são martelos de Juíz)
- Tarda mas não falha (aberto fora de horas)
- Cega Surda e Muda (mais uma sugestão para cadeias de restaurante)
Parem de dar nomes como a Taberna do Marinheiro, ou a Cozinha do Oriente para uma zona que merece muito mais imaginação. Aproveitem e façam um super restaurante assim uma espécie de Tromba Rija: o Pena Pesada, para fazerem lá o Natal dos Prisioneiros. O Chefe Silva trata das ementas e há um prisioneiro que faz as ementas escritas a vermelho, muito jeitosas por sinal.

sexta-feira, dezembro 05, 2014

O Novo Banco

... afinal é apenas o espécimen masculino daquilo que nos tempos pós 25 de Abril, foi chamado de Nova Banca. Não deixa de ser irónico que na mesma frase apareçam as palavras Nova Banca, Povo e Porta(s). Alguém naqueles dias, foi um visionário dos dias que correm ...

terça-feira, dezembro 02, 2014

Liderança Hexacéfala

O Bloco de Esquerda tem desde este fim de semana uma comissão permanente e uma porta voz. A liderança do bloco de esquerda é neste momento assegurada por seis pessoas. Se se tratasse de uma prova de ciclismo diria que é uma chegada à meta em pelotão. Eu achei que o congresso ia trazer um só líder e alguma melhoria nos resultados da esquerda caviar, mas convenhamos que com seis a liderar não temos uma esquerda caviar, temos uma esquerda fondue, que seis sendo um número simpático para eventos de fondue, é um exagero para caviar. Os restantes partidos de esquerda agradecem a decisão porque mesmo com uma porta voz, meia dúzia a mandar bitaites do calibre que costuma dar no bloco, aquilo vai parecer o palco do Anselmo Ralph no próximo concerto, com cada um a desafinar para seu lado.
Quando Portugal foi ao Euro 1984, levou 4 treinadores. A coisa foi entusiasmante mas acabou de forma tão triste. A liderança multicéfala tem uma esperança de vida curta e a única razão que eu vejo a utilidade de meia dúzia de líderes é poderem ser comparados a caixas de ovos ou a embalagens de pastéis de Belém. " A liderança do Bloco é como os pastéis de Belém, vem às meias dúzias mas só são bons enquanto estão quentinhos. Com açúcar e canela ainda disfarçam, mas não há nada que chegue aos acabadinhos de fazer."
Este artigo fica guardado na prateleira do "Eu bem vos avisei" até à noite das próximas eleições legislativas.

segunda-feira, dezembro 01, 2014

40 anos

40 anos foi o tempo que a nossa democracia demorou para deixar de presos políticos e passar a ter políticos presos.

quarta-feira, novembro 26, 2014

De três em três

E é sempre assim nesta altura .... em cinco semanas os três Marias fazem anos, como se num mês  o tempo atalhasse três anos deixando-nos nesta equidistância entre o orgulho e o espanto.  Em cada um encontrar marcas dos outros todos cá de casa, em cada um encontrar traços que são só dele. Um esquisso a se fazer gente, gente própria no meu espanto, própria gente no meu orgulho. E assim como vice e assim como versa.
Parabéns meus amores. Parabéns pelos teus 16, esses mesmos 16 do cartão de cidadão passaporte para os bares, esses mesmos 16 que te emprestam as bochechas e o ar de criança, esses mesmos 16 que te trazem às conversas de adultos e aos sonhos de menino grande. Parabéns pelos teus 13 de emoções à flor da pele, da irritação fácil, da comoção evidente, da persistência e da vontade. Os caracóis loiros quase passado, o riso escancarado desafiador quase sempre tu. Parabéns pelos dois dígitos pela primeira vez. Nem te sei bem dizer a quantidade absurda de mimo que tu encerras por ser mais novo, tampouco a pachorra que acumulas quando aturas os teus irmãos, muito menos os limites a que te expões quando os saturas com pequenas insuportáveis loucuras.
Parabéns meus amores.

segunda-feira, novembro 24, 2014

De Paris com amor

Tenho estado calado nisto do Sócrates porque, a bem da verdade, a única notícia até agora é que o ex-primeiro ministro foi detido para interrogatório por alegado envolvimento em crimes de corrupção, branqueamento de capitais e fraude fiscal.
Nestes casos da justiça, os mordomos e os motoristas são sempre os culpados. Já no processo Casa Pia, o motorista foi quem apanhou uma pena maior. E mesmo com a princesa Diana, ninguém me convence que o motorista não teve culpa no cartório.
Outra figura que ganhou protagonismo no fim de semana foi o advogado de Sócrates. Na impossibilidade de chegar à fala com o ex primeiro ministro, agora mestre Sócrates, o jornalismo elegeu João Aráujo como figura de inúmeras reportagens e debates. À semelhança do que aconteceu aqui há uns tempos na casa dos segredos, na impossibilidade de chegar à fala com a Fanny, toca de colocar o pai da Fanny no centro da acção. João Araújo é o Pai da Fanny deste caso e, na minha opinião, está ela por ela com o progenitor da concorrente.
Outra coisa que me parece irónica é o facto de ele ter sido  detido no aeroporto da Portela. Se a direita conservadora e o casmurro do Cavaco não tivessem impedido, Sócrates teria sido detido na Gare do Oriente á saída do TGV Paris-Lisboa, ou no Aeroporto da Ota ou na pior das hipóteses no Aeroporto de Alcochete. Esta direita tacanha impediu qualquer uma destas empreitadas e o homem foi detido num aeroporto regional com tiques de internacional.
No fecho deste texto, as medidas de coação ainda não são conhecidas, mas espero sinceramente que envolvam a necessidade de fazer login diário no sistema da PJ através de um Magalhães e a obrigatoriedade de frequentar as Novas Oportunidades na área da engenharia ou da política doméstica.
Quem anda preocupado com o que se está a passar é Cavaco, dado que o 10 de Junho está praticamente aí e até lá ele tem que condecorar o ex primeiro-ministro. Apressem-se lá com as medidas do coação para o presidente escolher o local para a cerimónia: palácio de Belém, Passos do Concelho ou o refeitório do estabelecimento.
A sério, divulguem as medidas com urgência que a Felícia Cabrita, a Manuela Moura Guedes e o José Gomes Ferreira estão com uma camada de nervos que ninguém os atura lá cima do leão do Marquês de Pombal com as vuvuzelas.

(A imagem usada neste post é da autoria da cátia Domingues autora do onewomanshow.blogs.sapo.pt)

Farto disto

Então tinham agendado as medidas de coação para as 18:30, são quase 7 da noite e nada? A justiça tarda (checked) mas não falha (unchecked).

sexta-feira, novembro 21, 2014

Ça marche ?

O concurso para miss França, além das tradicionais provas em fato de banho ou vestido de noite, vai exigir que as concorrentes respondam a um exame com 40 perguntas de cultura geral. Olhemos para 10 delas para perceber que dificilmente seríamos miss França e para sugerir que deputados, concorrentes da casa dos segredos, ministros, secretários de estado, primeiras damas e presidentes da republica passem por provas desta natureza:
1 - Em que ano caiu o Muro de Berlim?
2 - Em que país começou a Primavera Árabe em 2010?
3 - De que partido é o atual presidente dos Estados Unidos da América?
4 - Qual é a capital da República Dominicana?
5 - O que significa a sigla BCE?
6 - A que acontecimento da atualidade associamos a Rosetta?
7 - Qual a última cara do perfume Chanel N. 5?
8 - Quem é Conchita Wurst?
9 - Que personagem célebre foi criada por Agatha Christie?
10 - Que país organizou os Jogos Olímpicos de Inverno em 2014?

Às Portas da vergonha

PS e PSD voltaram atrás na intenção de levantar a suspensão das subvenções vitalícias.
Para os Bloquistas retomar o pagamento das das subvenções vitalícias é o renascimento do «Bloco Central no pântano da política»
Para o Partido Comunista o recuo no levantamento da suspensão foi uma vitória de Abril e da classe operária.
Para os socialistas, o recuo na suspensão foi feito em nome do bom senso.
Segundo os Sociais Democratas seria eticamente inaceitável levantar a suspensão.
Portas sobre este tema disse "Deixem-se de merdas e declarem o levantamento da suspensão como sendo irrevogável"

quinta-feira, novembro 20, 2014

Micro Gaitas

Já ontem Marilú esteve as 6 horas de perguntas da comissão parlamentar, a ajeitar o microfone  A mulher não parava de mexer no dispositivo enquanto ia alegremente respondendo às perguntas que lhe eram feitas. Cá para mim, Maria Luís Albuquerque passou as seis benditas horas com uma ideia na cabeça: a comissão era uma daquelas máquinas cheias de peluches e o microfone, o joystick para controlar a garra electrónica. Seis horas, 360 minutos a tentar sacar aquele peluche fofinho chamado Ricardo Salgado.
Hoje, mais um episódio com um microfone protagonizado por um deputado que insistia em tirar da frente do secretário de estado. A sério que estas pessoas são eleitas por nós e são a nossa classe política ?  E há gente tão válida no desemprego. Com franqueza, quão triste este espectáculo.

quarta-feira, novembro 19, 2014

Marilú na Comissão

Marilú, conhecida por Maria Luis foi à comissão esclarecer que a intervenção no BES não foi política. A julgar pelas imagens que chegaram, Marilú tem uma estreita e obsessiva relação com o microfone. Durante seis longas horas Marilú ajeitou o posicionamento do desgraçado para cima de um milhar de vezes. Escuso-me a comentar este facto porque os Enapá 2000 já cantaram tudo o que havia para cantar sobre o tema Marilú e uma solicitação para uma eventual ida à Comissão.

terça-feira, novembro 18, 2014

Álgebra Revolucionária

O Guia Galáctico do Pendura refere-se a uma revolução algébrica corolário da comparação entre o número de pessoas que marca jantar de grupo no restaurante, o número de lugares realmente marcados para o mesmo jantar e o número de pessoas que realmente aparece no jantar.
Portugal ganhou à Argentina e ainda hoje, antes do jogo, ouvi a um comentador toda uma teoria sobre o factor de Portugal só ganhar com Ronaldo. Ao intervalo do jogo ouvi o mesmo comentador a dizer que o resultado (na altura 0 a 0) era lisonjeador para a equipa das quinas uma vez que a equipa alva e celeste estava a dar um banho de bola e que Messi era um dos melhores em campo perante um Ronaldo que teve alguns apontamentos interessantes. Com Messi e Ronaldo fora de campo e mesmo perante o domínio da equipa das pampas, a equipa verde e rubra acabou por ganhar.
Estes factos aparentemente estéreis, vão fazer correr rios de tinta e originar horas de conversas entre comentadores e no entanto podem ser comentados com um simples"trata-se de um jogo nem sempre o domínio de uma equipa se traduz no resultado" ou mesmo com o lugar comum "são onze para cada lado e a bola é estranhamente redonda".
Os comentadores desportivos revolucionam todas as álgebras quando conseguem relacionar resultados com exibições com relações de ordem entre jogadores no campo e no banco, revolucionam a geometria com a análise profunda do fora de jogo, revolucionam a teoria dos limites quando a minha mulher assiste a programas de comentários sobre a jornada do fim de semana. São génios em estado bruto.
Temos os comentadores políticos que os nossos políticos merecem, mas temos comentadores desportivos muitos furos acima. Os melhores do mundo. Cristianos Ronaldos de comentadores desportivos. Pena que não possam dar uma mãozinha nas comissões de inquérito. Andamos tão necessitados.

segunda-feira, novembro 17, 2014

Inquiry TV

A Sport Tv anda com um enorme défice de atenção. Preocupada com a fuga de clientes para a Benfica TV, a gestão de Joaquim Oliveira e dos seus pares está a deixar escapar a oportunidade de uma vida. O caso Camarate, o caso Freeport, o caso dos Submarinos, o caso da Aquisição de Equipamentos Militares, o caso do BPN, o caso dos Estaleiros de Viana, o caso do BES, o caso da PT, o caso das parcerias Público-Privadas, o caso da Legionella, o caso do Citius, o caso dos Douradinhos do SEF. Nem Agatha Christie conseguia colocar tantos casos nas mãos de Poirot. Nem que a Enid Blyton juntasse os cinco, os sete, o colégio inteiro das quatro torres, as gémeas e mais o colégio de Santa Clara, alguma vez conseguiria juntar tantos mistérios para resolver.
E ainda andam os partidos maiores a discutir a redução do número de deputados. Então se reduzem o número de deputados, como é que vão dar vazão a tantos casos ? O melhor é contratar comissionaristas de inquérito com fartura e oferecer vistos de residência a quem aceite o cargo. Vai-.se a ver a solução para o desemprego está na carreira de comissionarista de inquérito, porque francamente, com 215 deputados quando resolverem a Tragédia de Camarate, ainda a comissão da Auto Estrada Lisboa-Corvo estará por nomear. E é aí que entra a empresa de Joaquim Oliveira. Prestes a perder o monopólio das transmissões dos jogos das ligas profissionais, chegou a hora de transmitir este desporto rei racional que é a liga profissional da Comissão de Inquérito. Até pode ser patrocinada como no caso do Futebol e não hão-de faltar empresas dispostas a fazê-lo.
Se houver comissionaristas suficientes, há-de haver material para pelo menos 3 canais premium a transmitir em directo as comissões, a revelar novidades sobre os casos, a fazer reconstituições das principais cenas do enredo, ou até novelas sobre os casos em inquérito. O caso BES tem todos os condimentos para uma série capaz de ombrear com pelo menos três temporadas da Downton Abbey. Sr Joaquim Oliveira, vá por mim e ponha os olhos nas Comissões de Inquérito. Aquilo ainda o vai fazer rico, e não se preocupe porque ali não há as falcatruas que minam o mundo do futebol. Ali é tudo tão transparente que até chega a irritar. Avance lá com a Inquiry1, Inquiry2 e Inquiry Gold (com conteúdos exclusivos, possibilidade de fazer perguntas aos próprios inquiridos e de votar os textos finais dos relatórios elaborados no seio das comissões).

domingo, novembro 16, 2014

Remar no sentido parado

O mais novo chega ao quinto ano convencido que aquilo é o forró do 1º ciclo. Estava-se mesmo a ver. Nem três semanas até nos chegarem ecos do brilhante comportamento do petiz. Não está com atenção, perturba os outros, interrompe as aulas para perguntar coisas que nada têm a ver com o tema na ordem do dia. Enfim, um rol de comentários capaz de levar os mais babados dos pais à beira do suicídio. Conversas e recados para cá e para lá entre nós e a directora de turma, vamos trabalhar no foco do menino, vamos ser incisivos nas mensagens a passar-lhe, vamos remar no mesmo sentido com vista a limar estar arestas. Tudo muito bem. Por mim eram uns castigos e umas palmadas no rabo que se lembrava logo que a matéria vem primeiro que a parvoíce. 
E pronto, vamos lá ser pedagógicos que os tempos são disso mesmo, coitadinho do menino que é um tudo nada  distraído e que de parvo nada tem, e umas palmadas não levam a lado nenhum.
Neste espírito da cooperação escola família, a semana passada mandei um caderninho com todas as aulas que ele ia ter para que os professores dessem, um por um, feedback do comportamento de l'enfant terrible e eis que, na volta do correio. "O professor X não preencheu porque não quer preencher coisas que não são da escola", "A professora Y disse que só preenchia se a directora de turma autorizasse".
Resultado: até à próxima reunião entre professores qualquer iniciativa fica na gaveta. 
Enfim, o moçoilo até nem é flor que se cheire no que toca a comportamento, mas caramba, se me voltam a falar de remarmos no mesmo sentido tenho várias sugestões para o destino a dar aos remos.

quinta-feira, novembro 13, 2014

Voar baixinho

Mesmo que a PT tivesse corrido bem, ainda que os CTT continuem a prestar um bom serviço, por muito que a GALP e a EDP sejam ainda referência na nossa energia, a verdade é que fico com a sensação que, em cada privatização, o estado português perde uma galinha de ovos de ouro a troco da disponibilidade imediata de meia dúzia de ovos de prata.
Eis que a faca que corta o bolo das empresas públicas chega à fatia da TAP. A TAP senhores ? A TAP era a empresa onde o meu pai começou a trabalhar, a TAP era esperar o meu pai às chegadas internacionais e a cumplicidade do segurança que me piscava o olho e me deixava ir ter com ele ainda antes de recolher a malas, a TAP era a varanda do aeroporto para ver os aviões levantar, a TAP foi uma crónica do Miguel Esteves Cardoso sobre a nossa mania de limpar tudo o que era oferecido nos aviões desde o pacote de açúcar aos toalhetes, a TAP eram os baralhos de cartas lá de casa e um cinzeiro verde horrivel em forma de triângulo, a TAP foi a primeira viagem de avião e o certificado a comprová-lo, a TAP foi a viagem de avião sem os pais e o cuidado com que fui acompanhado até à chegada em Londres, a TAP foi a visita ao cockpit de um comandante com ar estranhamente tranquilo rodeado
por milhares de botões e instrumentos de medição, a TAP foi aterrar na Madeira numa pista que parecia demasiado pequena para tanto avião, a TAP foi uma entrevista de emprego, a TAP é o sorriso desde o check-in ao desejar de boa estadia, a TAP é a certeza de que estamos em boas mãos quando decidimos ter asas nos pés.
A sério que é para vender ? Segue-se quem? A televisão ou Caixa Geral de Depósitos? Senhores, os anéis já acabaram, vocês estão a pôr os dedos à venda.

quarta-feira, novembro 12, 2014

TGV

As notícias têm este fascínio de, na sua maioria, não terem agenda. Os últimos dias têm condimentos de taxas municipais, de um surto de legionella, do Carilho a acusar o governo de tomar partido pela Bárbara e, pasme-se, de uma atriz brasileira a conduzir um alfa pendular entre Lisboa e Porto a 220 km por hora.

Para início de conversa vejamos de quem se trata. Uma atriz chamada Halima Abboud que tem, pelo menos, paixão por futebol, e por alfas pendulares. O pior de toda esta história é que querem identificar o maquinista que passou o alfa pendular para as mãos da senhora. Não se está mesmo a ver que foi coação? E se descobrirem quem foi, vão processar o homem ? Francamente. Um homem que faz turnos mais monótonos que o último disco do Miguel Ângelo, faz greves por melhores condições de trabalho, provavelmente até achou que a presença da senhora na locomotiva tinha sido uma vitória do sindicato sobre o opressora administração da CP e vão querer dificultar a vida a um senhor que na pior das hipóteses, tem dificuldade a dizer não. Ainda se dá a hipótese de ter sido o próprio Alfa Pendular que se descontrolou quando se apercebeu de quem estava aos comandos. Eu sei de muito boa gente que se fosse Alfa Pendular  até passava a TGV em circunstâncias semelhantes. Tanta coisa com o TGV e se calhar a solução passava tão somente por  trocar de maquinistas.

Mas a questão nem é esta, a questão é a importância que se está a dar ao factor de uma atriz brasileira estar aos comandos de um Alfa Pendular, pondo eventualmente em risco a saúde dos passageiros. Já sobre o facto de um quase cantor lírico estar aos comandos de uma Nação, vai para cinco anos, pondo efectivamente em risco a saúde, a habitação, a educação, a justiça e a dignidade de quase 10 milhões de habitantes, nem uma linha se escreve? Palavra de honra.