terça-feira, janeiro 05, 2010

Regressos

Nos dois últimos dias, os convites a entrar na máquina do tempo. Tempos idos que por estas e aquelas, agitam memórias.
No Domingo, em fim de férias, contagem decrescente para as azáfamas, uma ida a Mafra visitar o convento, aposentos reais e a biblioteca.
Desde a altura da recruta, chegar a Mafra dá-me um nó no estômago. Aquela puta angústia de Domingo à noite a tentar adivinhar a semana seguinte, mal disfarçada em graças cretinas de caserna. Sempre que chego a Mafra, faz-se esse nó no estômago, como o despertar um cheiro escondido num recanto longínquo da memória. Parece-me sempre que estou lá outra vez, enfiado naquela farda e naquelas botas, a passar o portão para a parada. O que acontecia até à sexta feira seguinte ainda hoje me provoca sentimentos contraditórios, entre o inútil e o útil, o exagero e o necessário, o estúpido e o pedagógico, o ridículo e o sensato, o execrável e o lúdico. À distância de todos estes anos, pareceu-me boa ideia mostra-lhes a zona militar do convento. Sobretudo o refeitório dos frades que faz lembrar o salão dos filmes do Harry Potter. Autorizados a fazê-lo pelo oficial do dia, regresso passadas duas décadas, aos corredores de pedra da área militar. Estava deserto e eu a lembrar o frio, os cheiros, os sons, os gritos de ordem unida, os gestos, os nomes em cada corredor como se fossem ruas. Os marias a inundarem o cabo de serviço com perguntas e um turbilhão de memórias na minha cabeça. Chegados ao refeitório e o aspecto simples mas imponente confirma-se. Tudo igual. E a marmelada que ao pequeno-almoço era mau sinal para o esforço que a manhã traria ? E os copos e pratos de alumínio alinhados milimetricamente com a ajuda de cordas esticadas para que tudo parecesse uma formatura? E os soldados a distribuir terrinas e travessas de comida como se de uma parada se tratasse? Depois do refeitório, mais corredores, e salas, e a parada. Agradecimentos feitos ao oficial de dia de acordo com o protocolo. Há tanto tempo que não me punha em sentido. Que coisa. Faria sentido? Gostei de vos levar lá. Gostei de lá voltar.

Na Segunda, sempre a mesma coisa primo Gonças, só nos encontramos nestas merdas. A tua mãe, que porra. É inevitável a viagem no tempo. Estavam lá os teus outros primos, os Geadas e depois é só puxar o fio para virem todas as meadas. O Pipas e o Ricardo e a Rita também lá estavam e faziam parte das histórias todas. Campo de Ourique parecia nosso. O Campo de Ourique de quando éramos super heróis sobre os telhados dos prédios dos Geadas, aqueles em frente à igreja, ou de quando tínhamos a banda. Os Puts. O Rock do Dentista. É a Milú que tem a tape que gravámos naquele estúdio. Cabra. A esta hora deve estar a ganhar milhões com direitos de autor. Havíamos de nos juntar sem ser assim. Que coisa. A tua mãe Gonças.

4 comentários:

Anónimo disse...

Apesar do nó no estômago que te faz sentir, dps de ler o relato de domingo fiquei contente por vos ter desafiado a esta aventura no convento de Mafra! Eles os 6 já só lá vão parar se assim o desejarem, felizmente!!!!
Já estou a imaginar a próxima aventura...prepara-te que nó no estômago vai ser pouco!!!

pal disse...

tb para o meu Pai, Mafra está atravessada ali no estômago e nas gavetas da memória angustiada - mas numa época mais aflitiva de preparação para uma guerra real...

o meu Pai quebrou a promessa de nunca mais lá voltar por causa do Memorial do Saramago. não fez questão de ir à zona militar.

Filipa disse...

Lá em casa também há quem sinta a mesma coisa ao pensar ou ao passar em Mafra. :)

Teresa Frazão disse...

Jamais entenderemos a morte.
Esta dura sensação de ao longo de toda a vida,
há um espaço
um canto qualquer
maior ou menor
em que realmente somos todos «sem abrigo»

T Frazão