Mostrar mensagens com a etiqueta CR7. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta CR7. Mostrar todas as mensagens

sábado, novembro 07, 2026

Lokus Narcisius

Para mim, Onda Azul é o nome do supermercado de Soltroia, capaz de exagerar nos preços se comparados com outras geografias, mas razoável se considerarmos os preços correntes praticados na península. Além disso, o Onda Azul tem pão quente quase todo o dia e umas empadas de galinha bem jeitosas. Também podia ser o nome de uma cadeia de lavandarias self-service, de um restaurante ou de uma escola de surf dos anos 70, mas na realidade, e nesta semana, foi outro o significado de onda azul. Trata-se da onda de eleitores americanos que escolheram votar nos candidatos azuis do partido democrata, em detrimento do vermelho do partido republicano.

De tal forma a onda azul se agigantou que já muitos a apelidam de tsunami, até porque quebrou records de hegemonia vermelha em alguns estados, porque permitiu a eleição do primeiro senador muçulmano ou da primeira senadora indígena dos estados unidos.

Esta onda azul, é sobretudo, uma onda de esperança num mundo em que andamos feitos zonzos a deambular entre o receio, o espanto, a revolta e o pessimismo, frente a um singular painel de líderes mundiais decalcados dos icónicos vilões da Marvel. A onda azul é o vislumbre de que ainda é possível sonhar com um mundo melhor quando tantos são os sinais no sentido contrário e a madrugada de quarta feira veio com bons ventos e melhores notícias da terra do tio Sam. 

Evidentemente que o personagem da Marvel, Lokus Narcisius (que já confessou imaginar o seu nome perpetuado no Estreito de Ormuz - "Trump Strait" ou no Oceano Atlântico - “Trump Ocean”) se apressou a sacudir responsabilidades para cima da rasa qualidade dos candidatos por ele escolhidos, alegando que a sua notoriedade é inigualável e que outra cor teria a onda caso os boletins tivessem a graça e a benção de contarem com a sua fotografia e nome. Não foi a inexplicável guerra, as derivas com as tarifas, o delírio com a groenlândia, os valores da inflação e do preço dos combustíveis numa tendência inversa à popularidade que explicam a conquista do congresso e do senado pelos democratas. Nada disso. O que faltou para a vitória foi o seu nome e a sua cara nos boletins. Esta é a narrativa de quem acrescenta às erráticas decisões, à comunicação sem filtros, à ausência de empatia, ao autoritarismo e à aversão à verdade, um gigantesco e desmesurado ego, que o faz sempre colocar o próprio interesse à frente do interesse do seu país.

O pior é que esta narcísica e egoísta obsessão por si  e pelos seus interesses é altamente contagiosa. É que palavrinha de honra, ninguém me tira da ideia que desde o jantar de gala na casa branca integrado na comitiva da Arábia Saudita, que o homem, símbolo e orgulho de todos nós, que chegou a ser o melhor futebolista do mundo, fruto de uma dedicação sem par ao trabalho, uma incessante busca pela perfeição e uma resistência e longevidade invulgar, começou a dar sinais de disfunção do ego e da inversão de interesses entre os do seu país e os pessoais. Eu nem sou de intrigas, mas aquilo que temos vindo a assistir nas últimas semanas, eventualmente meses, foram as más companhias e um contágio alucinante do Lokus Narcisius. 

Tomara que mais nenhum dos jogadores da seleção tenha sido contagiado. Desconheço o período de incubação desta enfermidade, mas como a última estadia no estágio foi curta e raros os momentos de convívio e partilha com os restantes jogadores, tenho esperança que o bicho tenha ficado por ali só. Oxalá.