sexta-feira, julho 24, 2026

Os sorrisos que queremos rever, devagar

Quarta feira, logo pela manhã, ainda eu confuso, sem reação, raso, pelo absurdo da notícia. Recebo um telefonema amigo “Era para te dar um abraço. Só há uma pessoa a quem eu posso dar os pêsames e és tu”.  “Que disparate” respondi-lhe “Dares-me os pêsames pelo Luis Represas. Que merda isto dele ter morrido”.  O telefonema era de um amigo da faculdade, e vai-se a ver não era disparate nenhum ele ter-me dados os pêsames. Afinal eu sempre achei que se alguma vez fosse preciso substituir o Represas, eu era um forte candidato a fazê-lo e para isso tinha que ensaiar muito. E macacos me mordam se eu não me fartei de ensaiar nos corredores da faculdade para desespero de colegas e de professores, ensaios que me valeram uma honrosa alcunha de “bardo”. Agora que penso nisso começo a desconfiar que os
professores me passavam às cadeiras para acelerar o meu percurso na faculdade, só para se livrarem dos meus concertos. Será ?  Não havia canção que não soubesse de cor, arranjo, 1ª voz, 2ª voz, entrada de instrumento, fífia dada em determinado concerto, variação, alinhamento de concerto. Eu sabia de cor e fazia questão de praticar muito. Se houve um grupo do qual eu fui fã foi do Trovante. Porque descobri o grupo antes de quase toda a gente, porque muito provavelmente os ouvi  na 1ª festa do avante em 1976 na FIL, porque o single “Nuvem negra” – a canção com que eles participaram no festival de Cuba – foi parar lá a casa, porque estive na “Festa do7” quando a Valentim de Carvalho lhes acenou com o contrato para o Baile do Bosque, porque fui vezes sem conta ao Happening e depois ao Xafarix, porque estive no Loucuras a vê-lo cantar as canções do Max, porque estive na Aula Magna quando ele partiu um pé em palco, porque estive em 84 no Coliseu,
e porque depois desses estive em tantos e tantos momentos do Trovante e do Luís, e é por tudo isso que sim, talvez eu possa receber uns pêsames na mesma proporção que recebia mensagens a dizer “Ontem lembrei-me de ti. Os Trovante foram à televisão e lembrei-me”. Eu, irritante, respondia “Trovante é singular: O Trovante!”. Sim, por isso ontem fui à basílica da Estrela para chorar perante uma urna com o bandolim pousado sobre ela. 

Sim ontem fui lá para te agradecer e para te chorar, para saber se alguém cumpriu o mar, para ver os lugares onde o espaço é quase tudo e tempo quase nada, pelo repouso de aventureiro, para chorar a saudade de alguém que nos faz falta, por cada uma das sete estrelas que se apagaram, para convocar os palhaços e chamar os acrobatas, e as lembranças de todos os momentos que são os sorrisos que quero rever devagar. Ontem fui lembrar-me de não ligar a coisas de nada como te ouvi numa canção, e fui reclamar de nos terem roubado um sorriso e também fui em nome da lua que veio beijar sei lá o quê, ou que te amava nas noites de pouca terra, fui pelo sonho pela vida pela poesia, fui para saber qual era o nome dessa moda, fui reclamar com Deus que leva os que ama. Fui protestar por só Deus ter os que mais ama. Sim Represas, guardo o teu sorriso fechado na minha mão, a contrastar com o siso que trago no coração. 

Só mais um recado, se houver próxima vez, a sério, não vás.