sexta-feira, setembro 10, 2010

Praia Fórum

Afinal gosto de praia. Está bem que a areia nas virilhas é chata, e o sal na pele também, e a sombra é escassa. Mas tem caipirinhas ao fim da tarde e tem fim da tarde que é provavelmente a melhor altura para lá estar. Mas tinha em mim tratar-se de um local com gente maioritariamente bem disposta, e sem lojas. Bem, na realidade, tem o vendedor das bolas de Berlim que anda com um sino para se fazer anunciar. Uma espécie de badalo. O badalo é, para mim, um som de aldeia. Da altura em que os pastores levavam os rebanhos para a serra e passavam à porta da casa de férias. O vendedor das bolas de Berlim leva cestos com bolas. Sem creme, com creme e com chocolate. Com chocolate ??? Que raio de invenção. Não me convenceu.
Além do homem das bolas (salvo seja, Deus me perdoe), há o vendedor de óculos de sol, e o das túnicas que não tem um ar nada simpático, e ainda o dos relógios e malas de marca, e o dos biquinis brasileiros que até tem um terminal multibanco, e o dos colares e pulseiras e também há chineses que fazem massagens. A praia está carregada de vendedores e isso acontece porque está apinhada de compradores. Até vendedores de pulseiras do equilíbrio aparecem. E logo na praia, em que uma pessoa está quase sempre deitado ou a desequilibrar-se de propósito para cair numa onda ou numa toalha. Há vendedores para quase todos os gostos e a euforia das compras instalou-se.
A praia está a transformar-se numa imensa superfície comercial em que os clientes estão parados e as lojas andam a passear de cliente em cliente, o que é cómodo. Aquela história de andar num centro comercial de loja em loja é muito cansativa e esta versão parece-me muito adequada à preguiça.
Aguardo com expectativa a chegada de outras lojas às praias porque há coisas essenciais que não podem faltar num centro comercial.
Um papelaria/livraria, por exemplo, faz falta. Há tanta gente a querer ler jornais, revistas e livros na praia que não se compreende a inexistência de um desgraçado que os venda praia fora.
Faltam ainda os electrodomésticos, os bancos, as seguradoras, as lojas de comunicações, as de desporto, de animais e manicures e pedicures em fartura. E um supermercado, para fazer compras à saída... ar condicionado se fosse possível também ajudava.

4 comentários:

@na disse...

e depois não sei muito bem porquê, ainda me espanto com as coisas que saem dessa tua cabeça.

Luís Rocha disse...

André
Acabaste por ajudar no combate ao desemprego com propostas de novos postos de trabalho.
Sugiro que desenvolvas a idéia e que promovas novos meios de acabar com a crise (já que quem o deve fazer não me parece que se aperceba da obrigação que tem).
Por exemplo não vi nada sobre "fast food" e cinemas na praia.
Um abraço (Mando eu que não existem distribuidores de abraços na praia).
LFR

Anónimo disse...

O badalo é um som da aldeia.
Os rebanhos ainda vão e vêem.

A aldeia é Tibaldinho.

Come-se em qualquer casa. As portas abertas.

Nada custa dinheiro.

É urgente dizer a memória.

É urgente dizer-te que o teu texto é belíssimo.

Inteligente e bondoso.

Mãe

Clau disse...

Umas palavrinhas: apenas e só no fim da tarde, numa esplanada. Aprendi ao longo dos tempos (26 anos.. pff!) que ir à praia é, geralmente, uma canseira muito grande: deitar na toalha, lutar contra o vento e contra a areia que nos transforma em panados, fazendo exfoliação quando ela até nem é necessária, ir ao mar, ter cuidado com as ondas, marés e correntes, evitar as bolas dos putos e dos menos putos, ver as famílias com os seus corta-ventos, chapeus de sol coloridos e Campigaz atolados de arroz com rissois, sandes de presunto e refrigerantes para uma chamada ao almoço: "oh Vanessa Cristina, Pedro Rafael, CristiAAAAANOOOO! VENHAM COMER!" e um ai jesus que lá vem a gente toda fazer um mega piquenique no areal em pleno sol escaldante das 12.00 às 16.00 e depois um não quê por causa das digestões ou então deitar as crianças porque ajuda a moer a comida se dormirmos uma sestinha. Portanto.. fim do dia, primeiro numa esplanada, vendo todos os outros a saírem orgulhosos dos seus escaldões, maioritariamente com as tangas e camisas desbotoadas, Campigaz numa mão, chinelos na outra, segurando o chapéu de sol debaixo do sovaco. As crianças a pedirem banho e (sempre) atenção, ansiando chegarem a casa. E depois sim, porque às 18.00 o sol ainda bate com força, estender a toalha numa praia quase vazia, olhando para o horizonte, com uns filhos bem comportados e um marido, mulher, companheiros que, tal como nós, levam um livro, um caderno ou simplesmente fiquem também a observar o mesmo que os nossos olhos alcançam.