quarta-feira, outubro 28, 2026

Toma que é para não seres mentiroso ...

Tempos houve em que os três Marias dormiam no mesmo espaço. Tempos houve em que eu ia para a cama de um deles contar uma história antes de adormecerem. A ideia era baixar-lhes as energias e, na paz de uma história contada com voz de rádio, levá-los a adormecer. Não era nada. A meio de qualquer história eu fazia com que um menino ou uma menina visse algo que mais ninguém via, como um crocodilo no meio da estrada ou um navio voador, e quando contasse à mãe “Mãe acabei de ver um crocodilo”, a pobre criatura era vítima de violência e levava um bofetão sempre com a frase “Toma que é para não seres mentiroso”. Os Marias começavam a rir assim que algo estranho acontecia na história, e quando chegava o bofetão já estávamos todos em gargalhadas. Isto valeu uma convocatória à preocupada professora primária do António, porque na composição, ele pareceu forçar o relato de uma criança esbofeteada pela sua mãe, acusada de mentir, depois de contar uma verdade à violenta progenitora. “São tão criativos, não faço ideia onde ele foi buscar tal coisa.”

Ora eu desconfio que o Luisinho, de apelido Montenegro, esteve em cada serão a ouvir atentamente as minhas histórias. Nunca me deitei com ele, com a graça de nosso Senhor, mas esta persistência em arrear, despropositada e injustamente não pode vir doutro lugar que não os serões com direito a história de chapadão. Isto faz com que os seus coleguinhas mais traquinas, manifestem com excesso de excitação, a concordância com a violenta, provavelmente injusta e seguramente inapropriada resposta. O “Toma que é para não seres mentiroso” é agora um “Toma que é para não acampares no Rossio” e as risadas dos Marias, são agora tristes deputados traquinas a gritar excitados "Carrega, PSP, carrega em cima deles", “Encostem-nos à parede” e “Levaram foi poucas”.


Bem sei que turmas com crianças problemáticas não são novidade, mas convenhamos, estamos a gastar a grande maioria do tempo a debater os chapadões, as tendas, os rossios, os excitadinhos que se descuidam na fralda quando a polícia se excede, as vestes, as cores dos cabelos, os sotaques dos manifestantes, as bandeiras e as causas que por arrasto são convocadas e as provocações da parte de uns e os exageros da parte dos outros. Quando não gastamos tempo a discutir os excessos nas manifestações do presente gastamo-lo a discutir o passado, num interminável passa culpas, no apontar o dedo aos governos que nada fizeram, às portas escancaradas para a imigração dos 500 euros, à venda a retalho do nosso país por vistos gold à imigração dos 500 mil euros e a regatear responsabilidades de tantos governantes nas últimas décadas. Paradoxalmente, quase não gastamos tempo a discutir o que fazer no futuro, como resolver o tema que leva alguns a manifestar-se e tantos a angustiar-se perante a inexistência de soluções para gerações que querem, com um projeto de vida viável, sair de casa dos pais.

O problema, a angústia, o desespero é muito maior que o Rossio, é muito mais que aqueles tantos. Muitos mais sabemos quão universal é esta preocupação de ver a geração de filhos e netos formados e com uma tão estreita e apertada passagem para um projeto de vida. Para um projeto de família, em que o trabalho seja retribuído com um salário justo, em que um salário justo tenha alguma folga para lá do esforço com a habitação, em que haja lugar ao amor, aos filhos, aos sonhos, às aventuras, ao que quer que lhes preencha a vida. Caramba, estamos perante toda uma geração cheia de valor, a quem muito facilitámos, é verdade, mas a quem muito também exigimos, e a quem, hoje em dia, não temos grandes esperanças para lhes dar a não ser uma passagem aérea só de ida. Preferimos ficar na sala a discutir de quem é a culpa, e se eles fizerem muito barulho, ainda lhes pregamos uns chapadões e umas bastonadas.

Sinceramente devemos-lhes muito mais que um beco quase sem saída. As soluções são, regra geral, lugares mais felizes que os problemas, até porque têm menos tendas e menos bastonadas.

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