domingo, outubro 24, 2010

De que me importa

... que o teu mundo esteja numa ordem diferente das que reconheço, se o que te oiço dizer não encaixa nas minhas redutoras lógicas. De nada me importa se isso, por alguma razão que eu nem sei, te fizer sereno, ou se te deixa enfrentar essa filha da puta de peito mais aberto. De que me importa senão saber da evidência de uma luta desigual, como desiguais são as forças nos extremos de uma alavanca. Assim arranjes um ponto de apoio. Assim consigas mudar o mundo.

quarta-feira, outubro 20, 2010

Tio

Eu reconheço que até incentivo os Marias a tratar os nossos amigos por Tio e por Tia. É prático, e resolve rapidamente o dilema de tratar por senhor, por você ou por tu quando não sabem o nome dos adultos. Também é verdade que cria algumas situações mais ou menos embaraçosas. A senhora do parque infantil no outro dia bem que tentava explicar ao sirenes que, por muito que quisesse, não era tia dele.
Existe, no entanto um limite de idade legal para este tipo tratamento: a adolescência ou a puberdade ou o que quer que seja. Rapazes e raparigas na segunda metade do 3º ciclo ou já na faculdade a tratarem-me por "tio" não pode ser. Mas não pode ser mesmo, até parece que não sou da geração deles.
No outro dia um universitário de barba tratou-me por "Tio" !!! Mas que merda é esta? Um tipo com pelos na cara a tratar-me por tio, não sendo filho da minha irmã? Então eles não percebem que me fazem sentir assim .... velho? O que é que se segue ? "Olá tio-avô"?

terça-feira, outubro 19, 2010

A passos de Coelho

Pedro Passos Coelho vai quebrar o tabu e revelar a posição oficial do PSD sobre o orçamento. Não lhe restando outra alternativa que não seja viabilizar o orçamento, este tabu nem estatuto tem para que Pedro fosse concorrente na Casa dos Segredos.
Aflige a insistência que os líderes da oposição têm para o harakiri político, mesmo quando o governo está moribundo. Eu não acredito, mas Pedro acredita ser uma excelente alternativa a José. E para que isso aconteça, é necessário que Pedro não perca base de sustentação. Ora Pedro resolve colocar-se numa situação em que se afasta da alternativa a José. Amua em vez de negociar, vira costas em vez de enfrentar, sai aos berros e bate com a porta, mas depois deixa aprovar um orçamento do qual já disse cobras e lagartos. Se votar a favor ou se se abstiver, vai contradizer tudo o que disse até hoje, e vai deixar passar um orçamento que ele considera mau, navegando na perigosa lógica do “menor dos males”. Se votar contra vai ser responsabilizado pelos tempos que se avizinham, numa dramatização muito ao estilo e muito conveniente ao governo. Parece que, mais uma vez, o PSD elegeu gato por lebre, por Coelho digo.
Se já perdemos muito com este governo, parece-me que perdemos todos também com esta oposição.

sexta-feira, outubro 15, 2010

Regresso

... da escola. Sempre férteis em ideias peregrinas. O noticiário da TSF anunciava agravamento de impostos às famílias e simulações sobre antes e depois do PEC3 de uma família de classe média:
- Pai, vocês vão passar a ganhar menos ?
- Sim. A ganhar menos e a pagar mais impostos.
- E porquê ?
(aqui a resposta dada foi a politicamente correcta, embora a vontade me empurrasse mais para o lado dos filhos da puta incompetentes)
- Porque o país está numa situação muito difícil e precisa de mais dinheiro.
- E as crianças ?
- As crianças como, Manel?
- As crianças precisam muito de dinheiro, para fazerem as suas coisas. Os jogos e as guloseimas. Eu já sei que o dinheiro vai todo parar ao Presidente da República. E depois? Como é que vem parar a nós?
- Olha Manel. Chegámos. Depois voltamos a este tema. Não é a mãe ali à nossa espera?

quarta-feira, outubro 06, 2010

Migalha

É verdade que sou lamechas, e que vai de quando em vez, um tipo se emociona e tal, mas depois vem-se-me a bipolaridade e tenho acessos de hiper sensibilidade que variam algures entre o poste telefónico e a boca de incêndio.
O coiso do mais novo morreu. O rato, o Migalha, o hamster dele. Tenho em mim que não aguentou a pressão. Afinal de contas, ele era o quinto elemento do sexo masculino num ambiente com poucas fêmeas. A rainha, e fora a rainha, só as duas hamsteres, a romena das limpezas e a sua nora que anda a aprender português e por isso vem ajudar a sogra, sogra essa que fala romeno com ela o que contribui de forma decisiva para a progressão da dita nora nas artes da língua de Camões. Falar em Camões, o bicho já devia andar a ver torto porque tinha um olho sempre meio fechado, ou estarei a confundir com o hamster do mais velho? Não interessa, a verdade é que se finou e era preciso dizer com muito cuidado ao sirenes, para não lhe estragar o feriado que já ia longo:
"ó António cheira-me que o teu Migalha não está vivo. Não se mexe nem um bocadinho"
"Pai ele é mesmo assim. Ainda ontem estava assim quietinho e depois fartou-se de andar"
"Mas olha que devia estar um bocadinho menos quietinho que agora. Se eu abanar assim a casinha dele ele não se mexe mesmo."
"Está a dormir Pai. Ontem estava igual"
"Não estava igual não. Olha lá. Vês que eu abano-o e ele não faz nada? Olha ele sem mexer nem um bocadinho. Está morto. Vês até está rijo."
"Está bem ... "
passados 5 segundos estava no quarto aos guinchos de tristeza a ser consolado pela mãe.

segunda-feira, setembro 27, 2010

Tóbis

Tenho andado de Metro. Já há tanto tempo que não andava em jeito de quotidiano. Os parquímetros e o projecto no centro de Lisboa, fazem-me percorrer as linhas subterrâneas e coloridas.
Hoje fui-te ver ao Hospital. A linha Amarela quase toda. Nem de propósito, a saída do metro mesmo colada à Tóbis. Sabes que só sei da Tóbis, porque me apresentaste ao mundo que sabe o que é a Tóbis. Deixemo-nos de fitas. Bons tempos aqueles. Sem dramas.

quinta-feira, setembro 23, 2010

Horas de Almoço

Com o início das aulas do mais velho, vieram almoços a dois. De homem para … para pré adolescente. O primeiro sob o pretexto do início da escola, e porque as aulas começavam à tarde, enfim, evitar que ele almoçasse sozinho no refeitório da escola. O segundo, passados poucos dias, porque se queixou de umas cólicas e ameaças de febre, e o melhor mesmo era passar o resto do dia em casa em regime de dieta e de marcação cerrada.
No primeiro, dia de estreia no secundário, na escola oficial, fizemos um programa de hamburgers e fomos a pé até ao liceu. Lá íamos felizes de mão dada até que ao fundo, virada a esquina e a uns 500, metros lá se vislumbrou o edifício do Filipa de Lencastre. Quinhentos metros. Foi esse o perímetro marcado para pôr fim à lamechice. Nada de mãos dadas, nem para atravessar a rua, e nem pensar em desejar-lhe “boas aulas” com um beijo. Aquele metro_e_beca_de_gente interditou qualquer manifestação que indiciasse a presença de mimo perante eventuais olhares de futuros colegas. Estupor do pré adolescente, lá isso é coisa que se faça. Ainda equacionei a possibilidade de o deixar entrar, e quando estivesse rodeado dos colegas na entrada da escola, lhe gritar “Joããããããõoooooooooooooooooooo. Está aqui a mãe ao telefone a perguntar se pode por a lavar o coelho que usas para adormecer !!!”
Deixei-o entrar sossegado, que só me iria perdoar lá por alturas do juramento de bandeira.
O segundo almoço, levou-nos a um tasco da nossa rua. Bifes de peru grelhados, que o pré adolescente estava com as tais cólicas. Pego no Correio da Manhã que estava no balcão e levo-o até à mesa. Vou folheando o jornal enquanto lhe mexo a cocacola para lhe tirar o gás e lhe digo que aquele jornal não é muito bom que só fala de crimes. Nem reparo nas páginas que vou folheando, até que os olhos dele saltam das órbitas. “Estás com cólicas João?” ao que ele me responde. “Estás nas páginas das prostitutas” Rabos para todos os gostos nos anúncios classificados. Entorno a Coca-cola e apresso-me a mudar de página até ao sossego de umas páginas com peças jornalísticas. Mais uma vez os olhos precipitam-se com um ar alarmado sobre o jornal. O que foi agora? Na página da direita um casal que foi preso por promover sexo com os filhos e às vezes até com o cão, na página da esquerda um homem assassinado porque lá na aldeia violava as galinhas e chegou a ser apanhado a violar uma cabra. “Que disparate João, deve-te estar a subir a febre. Não está nada disso escrito. Leste mal. Bebe a coca cola e não faças perguntas que ainda pioras. Desculpe, tem algum jornal de desporto em vez deste? Olhe, deixe estar e traga-me a conta.”

segunda-feira, setembro 20, 2010

Socorro

Procura-se peregrino para integrar esta imensa peregrinação aos hipermercados, lojas de desporto, lojas de material escolar e livrarias, e que arrume de uma só vez as três listas que estão lá em casa em fase de resolução.
* dá-se preferência a candidatos que saibam interiorizar conceitos como lixa de papel, diário gráfico, ângulos de um esquadro e papel de manteiga.

sexta-feira, setembro 10, 2010

Praia Fórum

Afinal gosto de praia. Está bem que a areia nas virilhas é chata, e o sal na pele também, e a sombra é escassa. Mas tem caipirinhas ao fim da tarde e tem fim da tarde que é provavelmente a melhor altura para lá estar. Mas tinha em mim tratar-se de um local com gente maioritariamente bem disposta, e sem lojas. Bem, na realidade, tem o vendedor das bolas de Berlim que anda com um sino para se fazer anunciar. Uma espécie de badalo. O badalo é, para mim, um som de aldeia. Da altura em que os pastores levavam os rebanhos para a serra e passavam à porta da casa de férias. O vendedor das bolas de Berlim leva cestos com bolas. Sem creme, com creme e com chocolate. Com chocolate ??? Que raio de invenção. Não me convenceu.
Além do homem das bolas (salvo seja, Deus me perdoe), há o vendedor de óculos de sol, e o das túnicas que não tem um ar nada simpático, e ainda o dos relógios e malas de marca, e o dos biquinis brasileiros que até tem um terminal multibanco, e o dos colares e pulseiras e também há chineses que fazem massagens. A praia está carregada de vendedores e isso acontece porque está apinhada de compradores. Até vendedores de pulseiras do equilíbrio aparecem. E logo na praia, em que uma pessoa está quase sempre deitado ou a desequilibrar-se de propósito para cair numa onda ou numa toalha. Há vendedores para quase todos os gostos e a euforia das compras instalou-se.
A praia está a transformar-se numa imensa superfície comercial em que os clientes estão parados e as lojas andam a passear de cliente em cliente, o que é cómodo. Aquela história de andar num centro comercial de loja em loja é muito cansativa e esta versão parece-me muito adequada à preguiça.
Aguardo com expectativa a chegada de outras lojas às praias porque há coisas essenciais que não podem faltar num centro comercial.
Um papelaria/livraria, por exemplo, faz falta. Há tanta gente a querer ler jornais, revistas e livros na praia que não se compreende a inexistência de um desgraçado que os venda praia fora.
Faltam ainda os electrodomésticos, os bancos, as seguradoras, as lojas de comunicações, as de desporto, de animais e manicures e pedicures em fartura. E um supermercado, para fazer compras à saída... ar condicionado se fosse possível também ajudava.

quinta-feira, julho 22, 2010

Até Jáááááá

Quem me manda fazer graçolas com o call center da TMN:
- e tenho o prazer de estar a falar com ?
- André Frazão
- muito bem senhor André Fragão o que prete...
- Frazão com Z
- Com G. Exacto. Senhor André Fragão em que posso ser...
- É com Z de Zeta e de Zebra.
- Com certeza. Senhor André Zagrão diga lá então em que ....
Nesta altura desatei a chorar de tanto rir e não consegui explicar ao meu interlocutor aquilo que ele tanto queria saber, sobre de que forma me podia ser útil.
Já foste útil, o meu fim de tarde foi muito mais animado graças a ti.
A família Zagrão agradece.

quarta-feira, julho 21, 2010

Defeso

- Está lá???? Josééé ? José Sócrates ?
- Sim
- Daqui é o Jorge.
- Coelho? Não estás em Angola? Desliga já isso pá. Olhó défice.
- Não homem. Jesus.
- Eláááá. Ando há que tempos para falar contigo, mas mudei de telemóvel e perdi o teu número. Olha lá, tens falado com a Alexandra Solnado? Vê lá se lhe dizes que isto do país vai melhorar a ver se ela espalha a boa nova. É que em mim já ninguém acredita, enquanto nela...
- Não sou esse. O do campeonato.
- Ai perdão excelência. Não o reconheci. Ainda não lhe agradeci devidamente o campeonato. A única coisa boa nestes últimos meses, para além do fim dos Delfins e do Jornal da TVI.
- Deixa lá isso. Mas olha. Podes agradecer agora. Preciso de um favorzinho.
- Diga lá então Excelência.
- Ainda tens vagas nas novas oportunidades?
- Eláááááá. Aquilo está cheio como um raio, Excelência. Parece o estádio da Luz em dia de derby.
- Preciso de uma vaga lá.
- Ui. Isso é impossível. Não tenho mesmo. A última foi ocupada pela Helena André. Espalhou-se ao comprido numa entrevista e estou-lhe a dar uma nova oportunidade.
- Ouvi falar. Mas eu estou mesmo muito necessitado.
- Deixe-me cá ver com mais cuidado Excelência. Vou abrir a lista de inscritos. Posso colocar em lista de espera?
- Nem penses nisso. É urgente. Queres mais um campeonato, não queres?
- Então não quero ? Mas acho que nem isso me salva. Deixe-me lá ver excelÊncia. Só se tirar de lá o Alegre. Aquele tipo também só me traz problemas. Fora com ele. E devo inscrever quem?
- Roberto Jiménez Gago. O nosso guarda redes. Aquilo é só frangos.
- Já ouvi falar, já ouvi falar. Também já tive problemas assim na equipa. Houve um que até um par de cornos fez a meio da sessão parlamentar. Muito bem Excelência. Já está inscrito.
- Obrigado José
- Ómessa Excelência, estamos cá uns para os outros. Posso ser-lhe útil em mais alguma coisa, Excelência?
- Não. É só.
- Então resta-me agradecer a amabilidade do seu telefonema. Muito boa tarde excelência. Até jááááááááááááááááááá.
- Até já?
- Desculpe Excelência. É o hábito. Ando a fazer uma perninha no call center da TMN. Nunca se sabe. Isto na política nada é certo. Um dia somos bestiais outro dia somos bestas.
- Sei muito bem do que falas José. Se calhar ainda te peço para me arranjares um lugar para mim também. É preciso saber inglês ou espanhol?
- Nãoooooo. Que disparate. Basta apresentar uns certificados.
- Antes assim. Bem, deixa-me lá ir para o treino.
- Vá vá Excelência, que eu também tenho aqui uns afazeres, com a alteração constitucional do Pedro. Então até à próxima Excelência.
- Adeus José. Obrigado.
- Adeusinho Excelência.

terça-feira, julho 20, 2010

Sabedoria Popular

... ainda as propósito do tema, saiu esta frase.
"O artesanato faz parte do património, a Bimby faz parte do matrimónio"

Facilitadores

A roda, a Ana Malhoa, o Tolan, o desodorizante roll-on, o regresso do Big Brother, o José Cid e as claras em castelo são boas ideias. Mas não se comparam a isto.
A par das molas que prendem os pares de meias desde que saem dos pés até que voltam para a gaveta, o cortador de maçãs que comprei é a grande invenção

segunda-feira, julho 19, 2010

Unlocked

Ontem ordenavam em decrescendo de preferência, os meios de transporte. O eléctrico à cabeça, à conta das viagens com os avós, depois o avião e o comboio. Carros e táxis no fim da lista. A excitação das viagens fica-lhes bem vincada no estilo, e quando se trata de estreias, é vê-los a explorar todos os recantos e a testar todos os equipamentos. Das cadeiras que reclinam, das portas que abrem e fecham, das torneiras que deitam água quando se pisa a borracha do chão. Um dia, está prometido, viajamos de autocaravana Europa fora.
Apanhámos o comboio em Paddington rumo à legolândia. Saída mesmo à queima para um horário cumprido à tabela. Correria plataforma fora até entrar na carruagem meio minuto antes da partida. Bofes de fora, suores nos bigodes, e lá nos sentamos dispersos em bancos de comboio, em modo de “such a cute family”. A pressa no embarque, aliada à vontade da descoberta, levou-os em direcção à casa de banho, porque não tinham tido tempo de chichis antes da jornada. Concordei e até subscrevi. Também estava com sinais externos de quem já me aliviava e a ida à casa de banho fazia todo o sentido. Deixamos a rainha entregue a leituras na sua poltrona e vamos os quatro à casa de banho. Surpreendentemente a casa de banho daquele comboio é enorme e tem uma porta a condizer. Como é que se abre ? Ora deixa cá ver, este botão do lado de fora que diz “OPEN” parece ser a chave. Confirma-se logo depois de três mãos pequenas se precipitarem sobre ele assim que eu anuncio “deve ser este”. A porta desliza para dentro da parede e exibe uns dois metros quadrados de WC. Cá fora, meia dúzia de ingleses sentados num banco corrido escancarado para a porta, assistiam deliciados à excitação da pequenada e das minhas tentativas mais ou menos infrutíferas de criar alguma ordem naquele caos. O botão “CLOSE” por cima de uma maçaneta com ar de “maçaneta de travagem de emergência” indicava o próximo botão a ser carregado. Depois de fechada a porta, e do alívio das impacientes bexigas, experimentavam todos os artefactos. O autoclismo, a torneira, o secador de mãos, o sabonete liquido num frenesim que se ouvia lá fora. Peço-lhes que não mexam em mais nada e começo a tratar do meu próprio alivia. Pila para fora e vai disto.
Assim que passo aquele ponto em que já não é possível parar, ainda faço uma recomendação em voz alta “NINGUÉM CARREGA NO BOTÃO VERDE QUE DIZ OPEN”. Nem meio segundo, sinto à minha direita, a porta a deslizar suavemente e a luz exterior a entrar na casa de banho. Uma mão na braguilha, a outra na pila, rodo o pescoço e vejo uma senhora de pé a preparar-se para entrar no WC. Grito “MENINOS FECHEM A PORTAAAAAAAAAAAAA” enquanto em movimentos parecidos com ridículos passos pequeninos e pulinhos tento pôr-me de costas para a porta e carregar com o cotovelo no botão CLOSE. A um ritmo enervantemente lento, a porta volta a deslizar até se fechar. Risadas e muitas dentro e fora da case banho e eu aos berros a tentar arranjar uma cabeça para rolar “Quem é que foi o engraçadinho que carregou no botão????” Todos juraram que nada tinham feito.
Acabo o meu alívio, transformado em pesadelo, lavo as mãos e abro a porta desta vez com o propósito de o fazer. Não sei porquê os que não estavam a sorrir ainda gargalhavam alegremente. Não são os Ingleses que se costuma embaraçar nestas situações? Pois aqueles pareciam muito à vontade. A senhora que ia entrar na casa de banho ainda consegue interromper o riso para me dizer “It’s not their fault. You must lock the door here” e aponta para a maçaneta que tinha um ar travagem de emergência e umas letras garrafais que diziam “LOCK”. Agradeci com sorriso amarelo e apressei-me a sair dali.
“Pai, o que é que a senhora estava a dizer?”
“Estava a pedir desculpa de ter aberto a porta”
“Porque é que ala apontou para aquela maçaneta?”
“Sei lá João Maria. Porque lhe apeteceu. Pouca conversa e vamos ter com a mãe”
Lá mudámos para a carruagem onde estava a Ana. Eu com cara de caso e eles com cara de gozo.
“Vamos embora Ana. Saímos já na próxima que este comboio não me inspira confiança”

terça-feira, julho 13, 2010

Conselho

Temo que a senhora não me queira voltar a ver na consulta.
Eu que já achava estranho o conceito de higienista oral, mais estranhei quando ela se virou para mim e disse:
"Vamos passar a usar fio dental diariamente"
Eu não consigo resistir à primeira pessoa do plural:
"Se não se importa, eu vou continuar a optar pelos boxers. A doutora fará como melhor entender."

segunda-feira, julho 05, 2010

João Sem Medo

Príncipe das Bochechas

Bem sei que formalmente estás proibido de crescer. É em tom de brincadeira, e de uma forma genérica tem a ver com a resistência a cortar uns cordões umbilicais fictícios. Acontece que nestas duas semanas, por estares na colónia de férias, torna-se conveniente que deixemos cair esses tais cordões. Só até ao final da colónia de férias.

Os recentes telefonemas entre lágrimas deixam-nos na equidistância entre o "ai meu rico menino que está tão triste ao abandono no meio da selva a braços com as saudades e já lá vai mais de uma semana e agora passou o ponto de tolerância à ausência parental e até provas de orientação nocturna no meio dos arrozais infestados de bicharada aqueles selvagens o obrigam a fazer" e o "deixa-te de merdas e trata de te divertir que foste tu a escolher ficar lá duas semanas e ainda há dois dias estava tudo lindo, e agora, sabe Deus porquê, deu-te a tremedeira e queres voltar para casa porque estás mal habituado".

Em conclusão ficas até ao fim de semana e serás mimado em conformidade. É para seres João sem Medo (não confundir com Semedo) e podes crescer à vontade. Estão excluídas situações que envolvam perca de mimo, alterações à voz e aparecimento de pilosidade em zonas estranhas. A mãe e o pai agradecem.

Obviamente antecipo-me

Eu que achei que só voltaria a escrever aqui quando Portugal fosse campeão do mundo, resolvi antecipar a escrita. O Queiroz que me perdoe, mas acho melhor antecipar-me.
A propósito da quantidade astronómica de vuvuzelas que cairam drasticamente em desuso, proponho que Joana Vasconcelos as trasnforme numa imensa instalação. Uma Scut de vuvuzelas por exemplo.
Nota do Autor: O IVA deste blog desceu 1% com efeitos retroactivos a 1 de Julho. Para equilibra.

segunda-feira, junho 07, 2010

Se ...

E se num repente e só por uma meia hora fossem grandes e conseguissem fazer descolar os aviões? E se soubessem levar-nos ao destino por cima das nuvens? E se abraçássemos a hospedeira à saída? E se nos transportássemos até à ponte azul e ela se abrisse ao meio para nos deixar passar? E se os guardas reconhecessem esta outra rainha e estas jóias duma outra coroa, desta nossa história? E se encontrássemos os dinossauros e as maiores baleias dos sete mares e em sete lances de escadas soubéssemos dos vulcões e sentíssemos os tremores de terra? E se encontrássemos todos os famosos de uma só vez, e o Ronaldo e o Mourinho e o Clooney e a eterna Princesa e a eterna Marlynn nos acenassem ao nos ver passar? E se as ruas à noite se enchessem de magia e nos parecessem um mundo de mágicos e muggles ou a imensa maçã? E se jantássemos na floresta tropical debaixo de uma tempestade sob o olhar atento dos orangotangos e na companhia dos crocodilos? E se navegássemos até à maior das rodas e numa só volta te mostrasse o mundo quase todo? E se acertássemos os nossos relógios pelas badaladas da torre maior? E se atravessássemos jardins encantados e brincássemos às escondidas com criaturas invulgares? E se andássemos num autocarro do tempo até ao mercado onde montras e obras de arte se confundem? E se a chuva de bolas de sabão nos surpreendesse e em sete pisos déssemos sete passos em sete terras de sonho? E se da catedral pudéssemos caminhar sobre as águas e nos misturar enfim na multidão? E se um edifício ímpar nos recebesse para jantar perto das docas cheias de reflexos de cor? E se um outro mundo se fizesse pouco a pouco, peça a peça, cheio de cores, e se esse mundo fosse do tamanho da nossa imaginação? E se na correria chegássemos à sala ao mesmo tempo que o apagar das luzes e nos entusiasmássemos num musical em palmas e bravos ? E se o mercado se enchesse de gente, de música e de sabores e ouvíssemos felizes música clássica e jazz? E se misturássemos um país na rua de um outro país e disséssemos adios a quem nos diz bye? E se tudo tivesse sido assim tão bom?

quarta-feira, maio 26, 2010

A estranha semelhança entre um cruzeiro

As férias em cruzeiro têm uma dinâmica peculiar. São férias em hotéis flutuantes, predominantemente com vista para o mar, onde alguns poucos milhares de pessoas convivem de forma mais ou menos pacífica e acham genericamente boa ideia estar à varanda. Mesmo que para vomitar. Eu pessoalmente não acho muito bonito, e não deve ser, porque nunca ouvi ninguém dizer “És tão bonito como um cruzeiro que fiz no mediterrâneo”.
Natércio gosta de fazer cruzeiros. Enjoa frequentemente, nada como um prego, fala um inglês miserável, tem pavor de gaivotas mas adora conhecer pessoas e ali, os restantes 2100 passageiros, não têm muito por onde escapar. É vê-lo a estudar os parceiros de viagem à medida que embarcam e a desdobrar-se em atenções com este ou aquele de acordo com a apreciação inicial. Grosseira porque superficial, mas muitas vezes eficaz. Chama-lhe perícia e gaba-se dela despudoradamente.
“Aquela ali foi despejada pelo filho no navio. A mulher já não vai para nova e os lares decentes estão pela hora da morte. Deve ser uma estreia. Que quantidade de malas absurda para duas semanas. Aposto que traz roupa de cama. Quando descobrir a sala de bingo, esquece-se que está num cruzeiro e vai passar o resto do tempo a riscar números e a gritar bingo quando fizer uma linha. Ainda a apanho na minha mesa num destes dias.”
“Olha-me que cromo. Cana de pesca!!! Com sorte trouxe o isco e tudo. Eh eh eh. Deve sair daqui com dois ou três tubarões debaixo do braço. Ó homem, hás-de estar na proa que eu sigo para a popa. Nem no bar depois de me atascar em margueritas te quero por a vista em cima.”
“É lecasssssss. O que é aquilo? Será que vem sozinha? Se naufragarmos nem precisa de colete salva vidas. Com aquelas bóias. Tem a marca no dedo, mas não usa aliança. Divorciada de fresco até aposto. Querem-me lá ver que saio daqui noivo? Ou te encontro na disco, ou vais parar à minha mesa num destes jantares.”
“Olha os Martins. Estes já os conheço do Norte de África em 2002. Porreiraços. Ele está igual e ela deve ter feito umas plásticas. Companhias certificadíssimas para as passeatas turísticas. São um prato estes dois. Que sorte Natércio!!!”
Se um dia fizer um cruzeiro sigo os sábios ensinamentos do Natércio. Divido as pessoas em grupos e ajo em conformidade.
Hei-de ter um grupo das “pessoas com quem divido o camarote” que são a família lá de casa e mesmo assim divido-o em dois. Putalhada para o camarote do lado.
Grupo das “pessoas com quem janto à mesa e bebo um copo no bar”. São os amigos mais próximos, de convívio fácil e muito saboreado.
Grupo das “pessoas com quem convivo no convés.” São as pessoas mais ou menos conhecidas de convívio agradável. Trocam-se umas piadas e eventualmente ganham estatuto de jantar juntos conforme a empatia criada.
Grupo das “pessoas que encontro na sala de jogos”. São as pessoas que aderem à mesma actividade, não necessariamente simpáticas, não obrigatoriamente conhecidas. Estão lá porque um jogo de grupo é isso mesmo. Um jogo de grupo.
Grupo das “pessoas que enfiava no bote salva vidas em caso de naufrágio”. São os dos camarotes, mais os dos jantares e um ou outro do convés, os idosos e as crianças e algum pessoal de bordo que sabem sempre o que hão-de fazer caso a situação fique dramática. Estão lá porque são próximos, ou porque são úteis ou porque simplesmente não se lhes recusa lugar no bote salva vidas.
Grupo “homem ao mar” ou “pessoas que atirava para fora do navio”. Se pudesse escolher, nunca teriam embarcado. Agora estão lá e é uma chatice mandá-los borda fora.
Se um dia fizer um cruzeiro, levo etiquetas.
E se o ? Não. Não existe essa coisa de grupos de amigos. Ah existe ? E se o Facebook fosse um cruzeiro ?

terça-feira, maio 18, 2010

Perfume

Gostam sempre de ir até aos empregos dos pais. A escola dos pais, parece ter uma outra magia, feita de secretárias grandes e computadores, e desenhos para pintar ou bolas de stress, ou o que quer que seja que os distraia durante o tempo de permanência naquele lugar. Depois há os amigos e colegas que se multiplicam em atenções e perguntas sobre eles e os irmãos. Gostam desse protagonismo e querem experimentar tudo, a máquina das comidas e a da água, querem ver a casa de banho e andar de elevador, querem ir à cantina e serem eles a carregar os tabuleiros.
Das minhas memórias tiro o cheiro de café do emprego do meu pai. Os escritórios paredes-meias com a fábrica, não disfarçavam aquele cheiro intenso e bom a café e depois o barulho das máquinas que o moíam ou torravam. E os amigos pois claro e os colegas. Lembro-me do Rui, do Carlos Alberto, da Isabel e do Nuno. O Carlos Alberto fez um trabalho, nem sei bem a propósito do quê, em que incluiu um texto que tinha escrito durante o ciclo. Lembro-me de regressar a casa carregado com pacotes de dois quilos de Sugus, ou com Suchard Express. Conferia-me um certo estatuto ter um pai que trabalhava no marketing. Por causa dos Sugus às catadupas, ou por levar Chupa Chups em forma de apito, antes de serem colocados no mercado, ou do prestígio de participar na escolha do nome do próximo produto: uma listagem com todas as combinações de 4 e 5 letras para sublinhar durante o fim de semana as que faziam sentido: saiu Brasa, essa mesma Brasa - a bebida que aquece o coração. E as filmagens dos anúncios? Isso é que era. A miúda gira da Tofina em Sintra, ou aqueles três dias no Portugal dos Pequeninos a filmar os Sugus. Uns quarenta e tantos graus e os miúdos naquelas fardas de banda de aldeia com a criançada a fazer de adultos a ver a banda passar “sugus de fruta, tantos sabores …”. Ofereci-me para ir buscar 40 cafés para a equipa, num púcaro quase do meu tamanho que me escaldava nas mãos. Sempre muito bem tratado, afinal de contas, eu era o filho do cliente.
Antes da faculdade voltei aos escritórios. Durante um mês, para trabalhar e lá estava o cheiro a café. Sempre o mesmo cheiro delicioso do café torrado. Ainda hoje, quando entro na Nespresso, que ironia, a loja de café daquela que era a grande concorrente, ainda me faz lembrar a Tofa e o escritório do meu pai.