quarta-feira, maio 26, 2010
A estranha semelhança entre um cruzeiro
Natércio gosta de fazer cruzeiros. Enjoa frequentemente, nada como um prego, fala um inglês miserável, tem pavor de gaivotas mas adora conhecer pessoas e ali, os restantes 2100 passageiros, não têm muito por onde escapar. É vê-lo a estudar os parceiros de viagem à medida que embarcam e a desdobrar-se em atenções com este ou aquele de acordo com a apreciação inicial. Grosseira porque superficial, mas muitas vezes eficaz. Chama-lhe perícia e gaba-se dela despudoradamente.
“Aquela ali foi despejada pelo filho no navio. A mulher já não vai para nova e os lares decentes estão pela hora da morte. Deve ser uma estreia. Que quantidade de malas absurda para duas semanas. Aposto que traz roupa de cama. Quando descobrir a sala de bingo, esquece-se que está num cruzeiro e vai passar o resto do tempo a riscar números e a gritar bingo quando fizer uma linha. Ainda a apanho na minha mesa num destes dias.”
“Olha-me que cromo. Cana de pesca!!! Com sorte trouxe o isco e tudo. Eh eh eh. Deve sair daqui com dois ou três tubarões debaixo do braço. Ó homem, hás-de estar na proa que eu sigo para a popa. Nem no bar depois de me atascar em margueritas te quero por a vista em cima.”
“É lecasssssss. O que é aquilo? Será que vem sozinha? Se naufragarmos nem precisa de colete salva vidas. Com aquelas bóias. Tem a marca no dedo, mas não usa aliança. Divorciada de fresco até aposto. Querem-me lá ver que saio daqui noivo? Ou te encontro na disco, ou vais parar à minha mesa num destes jantares.”
“Olha os Martins. Estes já os conheço do Norte de África em 2002. Porreiraços. Ele está igual e ela deve ter feito umas plásticas. Companhias certificadíssimas para as passeatas turísticas. São um prato estes dois. Que sorte Natércio!!!”
Se um dia fizer um cruzeiro sigo os sábios ensinamentos do Natércio. Divido as pessoas em grupos e ajo em conformidade.
Hei-de ter um grupo das “pessoas com quem divido o camarote” que são a família lá de casa e mesmo assim divido-o em dois. Putalhada para o camarote do lado.
Grupo das “pessoas com quem janto à mesa e bebo um copo no bar”. São os amigos mais próximos, de convívio fácil e muito saboreado.
Grupo das “pessoas com quem convivo no convés.” São as pessoas mais ou menos conhecidas de convívio agradável. Trocam-se umas piadas e eventualmente ganham estatuto de jantar juntos conforme a empatia criada.
Grupo das “pessoas que encontro na sala de jogos”. São as pessoas que aderem à mesma actividade, não necessariamente simpáticas, não obrigatoriamente conhecidas. Estão lá porque um jogo de grupo é isso mesmo. Um jogo de grupo.
Grupo das “pessoas que enfiava no bote salva vidas em caso de naufrágio”. São os dos camarotes, mais os dos jantares e um ou outro do convés, os idosos e as crianças e algum pessoal de bordo que sabem sempre o que hão-de fazer caso a situação fique dramática. Estão lá porque são próximos, ou porque são úteis ou porque simplesmente não se lhes recusa lugar no bote salva vidas.
Grupo “homem ao mar” ou “pessoas que atirava para fora do navio”. Se pudesse escolher, nunca teriam embarcado. Agora estão lá e é uma chatice mandá-los borda fora.
Se um dia fizer um cruzeiro, levo etiquetas.
E se o ? Não. Não existe essa coisa de grupos de amigos. Ah existe ? E se o Facebook fosse um cruzeiro ?
terça-feira, maio 18, 2010
Perfume
Das minhas memórias tiro o cheiro de café do emprego do meu pai. Os escritórios paredes-meias com a fábrica, não disfarçavam aquele cheiro intenso e bom a café e depois o barulho das máquinas que o moíam ou torravam. E os amigos pois claro e os colegas. Lembro-me do Rui, do Carlos Alberto, da Isabel e do Nuno. O Carlos Alberto fez um trabalho, nem sei bem a propósito do quê, em que incluiu um texto que tinha escrito durante o ciclo. Lembro-me de regressar a casa carregado com pacotes de dois quilos de Sugus, ou com Suchard Express. Conferia-me um certo estatuto ter um pai que trabalhava no marketing. Por causa dos Sugus às catadupas, ou por levar Chupa Chups em forma de apito, antes de serem colocados no mercado, ou do prestígio de participar na escolha do nome do próximo produto: uma listagem com todas as combinações de 4 e 5 letras para sublinhar durante o fim de semana as que faziam sentido: saiu Brasa, essa mesma Brasa - a bebida que aquece o coração. E as filmagens dos anúncios? Isso é que era. A miúda gira da Tofina em Sintra, ou aqueles três dias no Portugal dos Pequeninos a filmar os Sugus. Uns quarenta e tantos graus e os miúdos naquelas fardas de banda de aldeia com a criançada a fazer de adultos a ver a banda passar “sugus de fruta, tantos sabores …”. Ofereci-me para ir buscar 40 cafés para a equipa, num púcaro quase do meu tamanho que me escaldava nas mãos. Sempre muito bem tratado, afinal de contas, eu era o filho do cliente.
Antes da faculdade voltei aos escritórios. Durante um mês, para trabalhar e lá estava o cheiro a café. Sempre o mesmo cheiro delicioso do café torrado. Ainda hoje, quando entro na Nespresso, que ironia, a loja de café daquela que era a grande concorrente, ainda me faz lembrar a Tofa e o escritório do meu pai.
terça-feira, maio 04, 2010
Quinhentas por dia
Agora a sério. Então eu morro às 500 vezes por dia e o médico acha isso mau? Eu acho normal. O que não acho normal é a inexistência de festejos em cada ressurreição. Então o Outro que deu de si, e ainda por cima para dar de si, foi preciso fazer aqueles quilómetros todos, mais a cruz, mais os espinhos e ainda ficou para lá prespegado na torreira do sol durante uma data de tempo, e ainda se queixou que os técnicos não sabiam o que faziam e demorou três dias até ressuscitar e sabe Deus o que teve que fazer para o conseguir. Dizia eu então o Outro que ressuscita passados três dias, e há dois mil anos que se festeja o evento com vigílias, e lava pés e jejuns, e borregos, e procissões, e mais a cruz a passear na aldeia a ser beijada por toda a gente que este ano foi um disparate em soluções anti gripe A para manter a tradição, que até acabou tudo bêbado porque se esgotou a solução e untaram aquilo com aguardente e ninguém parava de beijar o Homem, e mais os ovos, e os coelhos, e tolerâncias de ponto à quinta à tarde que transformam qualquer empresa à quinta de manhã numa cresce publica, e eu que ressuscito à média de 20 vezes à hora, e acho que eles sabem o que fazem, mas nem a uma porcaria duma gala da TV eu tenho direito? Desculpem, mas acho um bocadinho desequilibrado. Chamem-lhe inveja, chamem-lhe ciúmes mas também quem não sente não é filho de boa gente e um gajo sente estas coisas. Mexe comigo, prontos.
Menos mal, vejamos o que diz este segundo exame. Mas vou já avisando, que se voltar a dar que morro em demasia, não se atrevam a chibar-se aos empregos e às seguranças sociais que vão logo arranjar maneira de dizer que ando a descontar tempos que não estou vivo, e que afinal nestas condições só me posso reformar lá para depois dos 80, que eu ando a fingir que vivo, e que não tenho direito ao ordenado por inteiro e o camandro. Se se puserem com essas merdas, ficam já a saber que vou reivindicar os subsídios de ressurreição e pensões de alimentos para os dependentes para cada vez que me baldo. Ficam, portanto, desde logo avisadinhos.
domingo, abril 18, 2010
Regressos



bQuase num acaso, no meio do meu facebook, descubro a minha prima a tornar-se amiga de um utilizador "Formigueiro Memórias". E memórias é o que não falta, quando se trata do colégio que tinha a forma de um castelo. Memórias de tantas coisas boas, dos recreios e das brincadeiras, de um armário de guloseimas, da sala de música, do cheiro da cantina, do elevador, das janelas às cores, da escada de pedra no recreio, dos banhos de mangueirada no regresso da praia, das festas de Natal, e das pessoas. Andámos lá tantos de então. Eu a minha irmã, e os meus primos, os Geadas também e os Cabanelas, e eis que o facebook, em tiques de máquina do tempo, nos leva de regresso à escola em forma de castelo, à terra dos sonhos.
quinta-feira, abril 15, 2010
Cuidados Intensivos
Eu diria que o homem, digo, o Deus, está de rastos e até nem acho que tenha a ver com as barbaridades a que vai assistindo sobre a Igreja e a pedofilia.
terça-feira, abril 13, 2010
Sobressalto
segunda-feira, abril 12, 2010
Descoberta Científica
Acho que descobri porque é que os monges tibetanos conseguem levitar. Têm a ver com uma gestão cuidadosa da flautelencia.
terça-feira, março 23, 2010
Dia do Coxo
Andamos pois todos coxos e este é um dia que a todos nós diz respeito. Descubram o coxo que há dentro de cada um de vocês e festejem o dia. Vão ao pé coxinho para casa e joguem à macaca.
terça-feira, março 16, 2010
Pequenas aprendizagens de fim de semana
2. Se, por ingestão excessiva de caipirinhas, deixar cair o telemóvel na sanita, enfie-o numa taça cheia de arroz para que este absorva a humidade. Também serve para outras razões que o levem a deixar cair o telemóvel na sanita. Findas 24 horas, o telemóvel estará praticamente operacional. Aproveite e faça arroz de sms's.
terça-feira, março 09, 2010
Na sala
A parte da frente da carteira, tem um tampo, e debaixo do tampo, tem espaço para as pernas. Parece impossível que as tuas nunca lá estejam e andem, como a agulha de uma bússola estuporada, sempre longe do local criado para o efeito. Gostei tanto de ler na tua classe, de já saberes da letra t e de a colares ao contrário na folha de papel. No recreio, ia-me dando a tronglamongla de tanto rodopiar os teus amigos rumo ao infinito e mais além. Aquele jogo do pisca pisca, é um bocadinho panhonhas. Piscar o olho uns aos outros é panisgas. Hás-de pedir à Professora Emília para vos ensinar a jogar ao bate pé que é muito mais animado e confere horas intermináveis de gestão da autoestima.
Adorei assistir à tua aula, e ganhei um quadro de pirata lindo. Agora já quase sabes ler, e finalmente a taxa de analfabetismo lá de casa regressa a zero, após onze anos consecutivos de valores acima dos 20%. É verdade, quando souberes escrever, lá para Maio, evita fazer panfletos insultuosos aos teus irmãos, como o Manel fez aos cinco anos.
quinta-feira, março 04, 2010
Nos lugares improváveis
Assíntota de uma curva é um ponto do qual esta se aproxima à medida que se percorre a curva. Quando essa curva é o gráfico de uma função, as assíntotas são as rectas que acompanham a função quando alguma das suas variáveis anda perto de infinito. É deste conceito que gosto. Da proximidade de duas realidades perto do infinito. Como as rectas paralelas que dizem combinam encontrarem-se por lá. É deste conceito que gosto, do da companhia em lugares improváveis. E então, e assim já tudo pode ser matemática. Já me é permitido dizer que o pote de ouro é a assíntota do arco-íris, que o céu é a assíntota do mar no horizonte, e que a estrada é a assíntota da copa das árvores. São a companhia em lugares improváveis. Agora quero ser a curva de uma qualquer função de amor, e quero-te sim, assíntota nos lugares improváveis, tão perto de mim quando algo tende para o infinito.
segunda-feira, março 01, 2010
Pasmaceira
Fui calmamente trabalhar, e no trajecto, parecia um profissional da condução de Domingo. Fiz três quilómetros atrás de um TIR carregado e cheguei a atingir 30 km/h. Deixei passar toda a gente nas passadeiras e não buzinei à senhora das muletas que atravessou na diagonal. Nas rotundas, deixei esvaziar todos os afluentes até entrar e demorei uns 40 minutos para lá do que seria necessário até chegar ao emprego. Mas não me enervei nem um bocadinho.
Já no trabalho, entrou um senhor aos berros com a minha equipa e até lhe pedi de forma muito tranquila, que usasse os canais criados para o efeito (entenda-se comunicar a desconfiança que algo não está de acordo com o estipulado).
À noite hei-de estar harmoniosamente em família. Os Marias vão a jogar à bola no corredor, formatar o disco do meu computador, destruir-me a Farmville e até podem fazer enchidos no tubo do aspirador, que eu muito pacientemente hei-de pedir-lhes para estarem um tudo nada mais sossegados.
Este aparelho aparentemente só mede, mas faz mais que uma caixa de valiuns. Acalma muito. O problema é que nos transforma nuns sabonetes, mosca mortas, capazes de verter baba, alforrecas, songamongas muito, mas muito irritantes. Não há-de faltar muito para o tirar do pescoço e arrancar os fios das mamas, que pareço uma playstation muito wire e pouco less, e ligar esta coisa ao segurança aqui da entrada que, esse sim, tem os batimentos cardíacos de um pargo congelado e demora 10 minutos a entregar um simples cartão de acesso. Amanhã cedo, saco-lhe o engenho e entrego-o conforme combinado para a leitura e interpretação adequada.
quarta-feira, fevereiro 24, 2010
QA
"Ó presunto, vai-te embora que não estás saboroso. Anda cá tu, paiosinho que vais já parar a este pãozinho e vou-te comer. Ai vou, vou."
Então o miúdo não podia optar por algo mais intelectual ? Falar com livros ou com discos pronto. Tinha que ser com comida ? O que é que se segue ? Vai-se armar em Jesus Cristo e escolher uma dúzia de ovos para apóstolos: "Tu estás estragado, deves ser o Judas" ?
Não faço ideia se o QI é alto, se o QE é interessante, mas o QA - Quociente Alimentar é um assombro.
domingo, fevereiro 21, 2010
Carta à Berta, digo à Paula
Mais uma vez, mea culpa, e fruto de uma educação afastada da cultura de Paris e Nova Iorque, mas não consigo gostar daqueles quadros. Em contra-mão, o edifício da Casa das Histórias é genial. Gosto de arquitectura.
O homem almofada que convence as crianças a suicidarem-se, ou a senhora que, na cadeira, cose o sexo do menino, vão ser ultrapassados num instante. Segundas quartas e sextas, das seis às oito da noite. O psicólogo foi muito compreensivo e faz descontos de grupo. Só tenho que pagar duas consultas para eles os três. Dois aninhos nisto e os três Marias ficam como novos.
quarta-feira, fevereiro 17, 2010
Quarta Feira de Cinzas
Carnaval sem pistolas, não era carnaval, e bisnagas são coisas de menina. Pistolas só eram pistolas se tivessem fulminantes, de preferência daqueles em formato de tambor para o estoiro ser mais real. Além dos fulminantes, havia os estalinhos que, se comprados às centenas, garantiam uma quantidade de pólvora razoável. E ainda tínhamos as bombas chinesas que, além de pólvora ainda forneciam rastilhos. Por fim as bombas maiores. Essas sim, necessitavam de algum cuidado no manuseamento, mas garantiam sempre um efeito sonoro e visual invejável. Além destes materiais explosivos ainda haviam umas tiras que se raspavam na parede e se estalavam dentro das mãos fechadas em concha e as conhecidas bombas de mau cheiro que estavam fechadas dentro de umas mini-lâmpadas de vidro.
Toda esta geração a que pertenço, durante a festiva época do Carnaval, manuseou de forma displicente um poderoso arsenal de artefactos. À luz dos actuais paradigmas e normas, devíamos estar todos manetas-ou-mortos vítimas de acidente, ou presos-ou-a-monte por pertencermos à ETA, ou recrutados pela Al-Qaeda para integrarmos as fileiras da AAJS Assim-Assim-Jovens-Suicidas.
Se já vivi tanta coisa no Carnaval, haverá alguma coisa que me impressione nesta época de foliões? Há sim senhor. Faz-me uma tremenda espécie, a cópia sem qualidade das tradições carnavalescas do outro lado do atlântico, que inundam os desfiles do nosso país, com falsas mulatas em hipotermia extrema e parcos trajes de lantejoulas de lojas de chineses. Aquelas mulheres correm risco de vida, a desfilar naqueles preparos sob temperaturas quase negativas. Metam uma coisa na cabeça: o aquecimento global esqueceu-se de nós, e quando mais precisamos dele, teima em abandonar-nos. Não há nada a fazer, o nosso carnaval não se festeja acima dos 30 graus. Está sempre um barbeiro que o senhor nos acuda. Deus me perdoe de escrever isto: Vistam as gajas. Tapem-nas. Elas não estão a sambar. Estão a tremer de frio.
quarta-feira, fevereiro 10, 2010
O Tasco de Alvalade

O sr ZéDungas, proprietário da tasca lá do bairro, marcou para esta terça feira, uma degustação de petiscos. Coisa fina, bem se vê, com direito a orelha de porco, punhetas de bacalhau e pipis na ementa. Ora o ZéDungas, que anda nestas coisas há muitos anos, sabe que cada vez que se aplica na ementa, lhe aparece o Adérito Zarolho mais o seu grupo de amigos que, além de apreciarem a degustação, carregam no apreciar e fazem sempre estragos. Partem uns copos, insultam os outros clientes, e não seria uma estreia se provocassem desacatos com contornos violentos. Consciente do chamariz que a degustação provoca, o sr ZéDungas contratou um serviço de acompanhantes, amigos seus lá do bairro, de porte robusto e cara de poucos amigos. A troco de umas saladas de polvo e umas bejecas, estes acompanhantes garantem que o Adérito Zarolho e os seus amigos, entram no tasco ordeiramente, sentam-se de forma civilizada, apreciam a degustação e não chateiam mais ninguém, até porque lhes está reservada a parte dos fundos do estabelecimento.
Ora a casa já estava meia cheia com os clientes habituais e a azáfama na cozinha já era muita. Os pezinhos de coentrada já levavam um bom avanço e os clientes iam preenchendo os bancos corridos da sala principal. Nisto eis que chega o grupo do Adérito Zarolho, que até já devia ter chegado mas como o Mancos se atrasou, acabam por chegar rodeados pelos acompanhantes, dispostos a garantir a entrada ordeira dos rufiões. Tudo muito bem, não fosse a circunstância, de terem que impedir a entrada dos restantes clientes, para dar lugar à entrada do Adérito Zarolho e seus amigos. Tudo muito bem, não fosse o facto de terem demorado uma eternidade a entrar e a sentarem-se. Tudo muito bem, não fosse o caso de, após restabelecida a ordeira entrada dos restantes clientes, já estarem vazias as travessas dos pezinhos de coentrada e das punhetas de bacalhau.
O Adérito Zarolho e os seus pares, chegaram depois da hora combinada, puderam escolher da ementa completa, fizeram trafulhice na conta e ainda apanharam tosga tamanha que espantaram muitos clientes. Os pacatos clientes que chegaram antes da hora em que marcaram mesa, ficaram à espera a ver desfilar o Zarolho, perderam a degustação dos pezinhos e das punhetas e ainda aturaram os excessos do desordeiro grupo.
O ZéDungas, que anda há tantos anos a virar frangos, devia fazer algo mais pelos seus clientes. É que o petisco, por melhor que seja, nem sempre merece o esforço.
Se isto acontece na tasca do ZéDungas, não é menos verdade que também acontece no estabelecimento do José Eduardo Bettencourt. É que tenho aqui uma pergunta entalada: “Se eu cheguei meia hora mais cedo com a família toda ao estádio, porque é que tive que esperar que as atrasadas claques do Benfica entrassem, para só então, após longas filas e esperas e conselhos para não exibir sinais externos de um de um outro clube, me conseguir sentar já com meia hora de jogo disputado?”
sábado, fevereiro 06, 2010
Porque hoje é Sábado
- Bom dia, cinco bilhetes para o jogo de terça feira
- Só lhe posso vender dois
- Desculpe ?
- Só posso vender dois a cada pessoa.
- Mas então nós somos cinco. Eu, a minha mulher e os nossos três filhos.
- Pois. Só posso vender dois. Se quiser compra dois, sai da fila, volta a entrar e compra mais dois, e depois sai da fila, volta a entrar e compra mais um.
- Olhe, eu nem vou dizer a minha opinião sobre essa sugestão. Pior que isso, até vou cumprir essa estratégia. Mas garanta-me que os cinco lugares são seguidos, que a ideia é vir com a família ao futebol.
- Sim senhor. Eu guardo-lhe aqui os cinco bilhetes e vai entrando e saindo da fila. De certeza que quer os cinco.
- Ó minha senhora, então se eu lhe disse que venho com mulher e três filhos ao futebol, não se preocupe que não vou embora enquanto não tiver os cinco bilhetes. Todos juntinhos como já disse. (se eu fosse o Sá Pinto já tinhas levado uma cabeçada no meio dos olhos)
Passou-me os cinco bilhetes para a mão sem que tivesse que andar a entrar e a sair da fila. Fiquei meio aparvalhado. Quer pela regra, quer pela sugestão, quer pelo desfecho. Fraca prestação durante todo o tempo, e nos descontos lá fez alguma de coisa de jeito. É definitivamente do Sporting.
Porque hoje é Sábado, toca de ir andar de cavalo após meses sem lá pôr os pés. Aquela coisa do trote elevado dá-me cabo das pernas e do rabo, que vai ficar em mau estado durante três quinze dias. Aquilo já não estava a correr lá muito bem, tudo muito tirado a ferros, até que se me saltou um pé do estribo, e o rabo cai todo para esse lado. Perante a eminente queda, já eu me preparava para mergulhar de cabeça na areia, o cavalo pára o trote, os meus filhos riem-se a bandeiras despregadas, o professor diz para eu me agarrar ao pescoço do animal, e após muito esforço, cãibras na perna, pescoço do bicho e cerca e sela a servirem para me içar, lá me consigo sentar no dorso do pobre animal que ainda hoje está pensar de mim, o que eu penso da senhora das bilheteiras de Alvalade.
Porque hoje é Sábado, e os mais novos estão encaminhados em programa com amigos, que tal uma ida ao cinema com o mais velho? Woody Allen para estreia cinéfila de filho mais velho com os pais. No Londres para ser evidente a semelhança. Eu a ir com os meus pais ao Londres ver um filme de Woody Allen há 35 anos atrás. Há coisas boas que se repetem, e este programa do Maria mais velho a fazer de filho único, lembrou-me tanto as idas ao cinema com os meus pais.
Porque hoje é Sábado e o dia já vai pouco cheio em peripécias, um dos hamsters fugiu da gaiola e foi dado como desaparecido. Revirar marquise de pernas para o ar e nada de bicho. A dispensa, deixa lá ver a dispensa. A dispensa cá de casa é uma espécie de puzzle onde vai parar mais ou menos tudo. Ferramentas, panos, aspiradores, caixas, electrodomésticos em desuso e outros ainda a uso, vão-se amontoando ao lado da arca frigorífica por baixo das prateleiras de mantimentos. O estupor do roedor lá estava debaixo de mil e um artefactos, e dos panos já tinha feito um ninho, e como o bicho estava armado em senhora da bilheteira do Sporting, assim que achou que o ia agarrar enfiou-se no motor da arca frigorífica, o que multiplicou por 10 a dificuldade em apanhá-lo, mais a mais porque os Marias guinchavam a cada investida para o agarrar.
Só faltava agora, e porque hoje é Sábado, o Benfica estar empatado com o Vitória de Setúbal e falhar um penalty já nos descontos.
quinta-feira, fevereiro 04, 2010
Abandono do lar
As quartas são dias complicados e sendo assim recorro à ajuda da babysitter R. para banhos e jantas. Cheguei tarde a casa, de forma a garantir que ela já tinha tratado destes temas, mas que ainda havia tempo para me dar banho a mim. Devia estar com pressa porque não partilhou a minha visão sobre este tema. Brincadeira, chocolates ilícitos, história para adormecer e vai disto. Antes das dez já babavam as fronhas da almofada.
Que raio de coisa isto de adormecer sozinho e acordar com dois homens na minha cama. Um quarto de hora mais cedo, por causa das roupas e pentear aqueles cabelos, que se fossem carecas como o pai a coisa tornava-se mais simples. Nada disso. Só o Sirenes tem um cabelo ralo e reles como o meu. Ai porra que já estão no carro e me esqueci que era dia de futebol e de taikondu e têm que ir equipados e com barras nesquick na mochila, tudo para cima, para reconfigurar os conteúdos das mochilas. Olha, acho que deixei roupa à chuva. Paciência hoje ao fim da tarde meto-a no forno e dez minutos no duplo grill ventilado hão-de conferir-lhe grau zero de humidade. Bem sei que não é a solução ideal, mas o microondas está avariado.
Lá vão para a escola com umas roupas meias esquisitas, de cores que não combinam. Hoje vão mascarados de instalação da Joana Vasconcelos. Cheios de cores e formas estranhas.
Deixa-me mas é ir trabalhar que não tarda tenho que os ir buscar e fazer o jantar e banhos que a babysitter faz-se pagar caro e ainda por cima não há meio de a por a dar-me banho, pelo que hoje está dispensada. Para o jantar fazemos uma coisa marcante. Um fondue ou bifes na pedra, para ficarmos com o cheiro em casa até terça feira, sempre disfarça o facto de ontem ter fumado na sala e o tema tem estado na ordem do dia desde o fim de semana. Será que o mais velho levouo telemóvel? Não combinei nada com ele sobre o tema “Horas de regresso a casa”. E a roupa para a engomadoria ? Não esquecer de a tirar do forno.
Vai tudo estar um brinco no regresso. De certeza. Há um prato partido, mas apareceu nesse estado dentro da máquina, não faço ideia como.
sexta-feira, janeiro 29, 2010
iAminhavida
Rituxa D'Orey olha-se pela última vez ao espelho, ainda com o larilas de ar babado atrás dela. Gosta do que vê. Sempre gostou aliás. Aquele rapaz era o único que parecia dar vida ao seu cabelo. Ficava sedoso, ganhava tons e formas leves, sem nunca perder a postura:
- Está lindo Zeca, mais uma vez. Quinta passo cá, antes da vernissage. Só para dar um jeito e pentear. Como só tu sabes meu querido.
O larilas engoliu em seco. Fez uma pausa, abanou a anca e avançou a medos para a resposta:
- Sabe o que é Rituxa? Quinta prometi que levava a minha tia ao médico. Anda com umas cólicas nos ossos que não se aguenta. Finalmente lá conseguiu consulta e eu prometi levá-la lá. Só cá estou durante a manhã.
- Ai que maçada. E agora como é que vamos fazer? Eu não posso chegar lá com aquele ar de gata borralheira. Ai ó Zeca faça lá como entender, mas não me abandone quando mais de si preciso. Fico à espera que me telefone a dizer a que horas me penteia entre as 5 e as 8. Não me faça uma desfeita destas.
Dentro da mala, o gadget de Rituxa desperta e prepara-se para os desabafos. Regista todas as queixas, os problemas, e os desabafos, dá-lhe palavras de apoio, mostra-lhe imagens onde aparece divina, oferece-lhe um chocolate para a acalmar, sugere argumentos para colocar o jovem cabeleireiro desconfortável, transforma-se uma bola anti stress e elogia-a de forma desmesurada.
iQuemaçada é um dos gadgets que a Apple criou para desabafos e stresses do dia a dia. Destina-se ao público feminino das classes alta e média alta.
Além do iQuemaçada, fazem parte desta linha o iAminhavida, destinado a crianças, o iAmerda para adolescentes, e por fim, o topo de gama: o iOcaralho que cobre um vasto publico alvo e possui múltiplos modos de funcionamento. Do trolha ao executivo, do desabafo ao insulto, este gadget pode ser usado em reuniões de trabalho, a conduzir, a interagir com gerentes de restaurantes, em idas ao futebol, em sessões parlamentares e em reuniões de condomínios. Só para aguçar o apetite dos mais curiosos, este brinquedo para adultos, consegue fazer toda a conversação com as linhas de apoio a clientes e as linhas de apoio técnico das mais prestigiadas empresas de comunicações: PT, Clix, Meo, CaboVisão, Zon, TMN, Optimus e Vodafone. Para os amantes de futebol existe uma edição exclusiva assinada por Sá Pinto.
Os preços destes pequenos grandes génios serão divulgados ainda no decorrer do primeiro trimestre de 2010.
quarta-feira, janeiro 27, 2010
Ponto de Situação
Todos os anos, por esta altura, o colégio agenda uma reunião entre pais e cada um dos professores. O objectivo é saber a quantas anda o educando e perceber como se pode corrigir os pontos de maior dificuldade. Cada professor tem a sua secretária e os pais vão fazendo fila para ir falar com os professores que entenderem. Há-os de todos os tipos. Os que só falam com o director de turma, os que falam com todos, os que falam com os mais giros, os que falam com os das disciplinas em que o filho mais se espalhou, e os que falam com as que têm mamas maiores. Estava tentado a combinar as duas últimas modalidades, mas a hora a que cheguei empurrou-me para a escolha dos que têm menos alunos para atender e se conseguisse ainda falar com os das disciplinas onde o bochechas mais patina. Quando cheguei senti-me como se estivesse no hipermercado e tivesse que ir ao talho, peixaria, padaria, charcutaria-carnes e charcutaria-queijos quase em simultâneo. Senhas de todos nas mãos e ver onde é que me chamavam primeiro. Perdi a vez na charcutaria-queijos porque estava a ser atendido na peixaria. A mulher da fruta não estava a tender e portanto fechou a banca. Que merda, logo a fruta onde ele mostra algumas carências.
Falei com o de Educação Física, depois com o de EVT (não fazia ideia o que era EVT, mas na conversa lá percebi que tinha a ver com Educação Visual e Trabalhos Oficinais), segui para o de Educação Cívica e Moral mas que afinal não era professor do bochechas e portanto voltei para a fila. Seguiu-se História e Geografia, Inglês, Matemática e Educação Musical.
Além das mensagens importantes, que deram direito a uma sessão de auto avaliação enquanto tratava do jantar, descobri a existência de uma diferença entre o que se passa na escola e o que é contado em casa. Nem comento, só relato:
O que se passou na escola:
Prof – É natural que tenhas dificuldade em aperfeiçoar o teu desenho. Tens uns lápis de cor muito rijos que dificultam a pintura. Era bom se pudesses ter outros mais moles.
Bochechas - Neste momento vai ser difícil comprar. Tenho muitos encargos financeiros com os hamsters.
O que chegou a casa:
Bochechas – A professora disse-me que se não comprar lápis bons, nunca vou conseguir ter boa nota a EVT.
Nós – Vamos ver o que se conseguimos comprar. Mas não é para estragar tudo na primeira aula.
O caso encontra-se em análise em conselho familiar. Os bichos até podem não ter culpa, mas era um bom pretexto para ver como se safam no remoinho do autoclismo.