quinta-feira, outubro 22, 2009

Oito

Claro que tens dias e nos dias tens horas e é assim que te amo. Porque sou de ti nos dias sim e és de mim nos dias não. Com vices com versas.

Parabéns Nhó.

sexta-feira, outubro 16, 2009

Balão

Afinal o menino nunca esteve no balão que viajou quase 100 quilómetros pelos céus de Denver. A porta aberta do cesto foi um mero acaso e a criança estava na garagem de casa. Por ventura no imaginário desta criança os balões não se vestem de prateado, antes de mil e uma cores, e têm a forma de uma bola gigante. Acredito que algumas garagens do lado de lá tenham a magia de alguns sótãos do lado de cá. Cheios de mundos de fantasias onde se pode viajar em balões coloridos guardados por dragões sobrevoando florestas e cenários de aventuras. E se não for de balão, há-de haver viagem com toda a certeza num barco pirata como o que eu comandava no sótão de Tibaldinho. Por causa das arcas velhas de madeira que encerravam tesouros e da varanda, a ponte do meu navio, onde se podiam içar bandeiras e dirigir o leme no meio de tempestades impossíveis. Foi assim que passei a gostar de tempestades e trovoadas, vividas na proa do meu navio, quando lhe rasgavam as velas e ameaçavam o naufrágio. Homens ao mar. Agora o sótão ainda é local previligiado de brincadeiras, e a família de morcegos, que por lá vive, encanta os Marias. Noutras histórias com certeza, noutras fantasias. Se calhar um balão colorido diferente do que a americana criança nunca embarcou.

quinta-feira, outubro 15, 2009

O Brasil SOS ao Brazil

Não tenho nada contra nem a favor da Maitê Proença. Não sou consumidor, admirador da eventual obra, nem tampouco lhe acho muito graça. Não me diverte, não me emociona, não me serve para nada. Anda meio Portugal de honra ofendida porque a senhora resolveu tecer comentários jocosos sobre a inteligência Lusa. Também não me aquece nem arrefece que se indignem, embora ache despropositada a reacção tendo em conta que assistimos de cara alegre a rubricas do estilo "Portugal no seu melhor" onde são constantemente apontados a dedo, casos e mais casos que ilustram a inabilidade de alguns dos nossos conterrâneos.
Este caso não passa de um orgulho que nos falta quando mais precisamos dele e nos sobra quando é perfeitamente acessório. Uma coisa é dizermos mal de nós próprios e sabermos rirmo-nos dos nossos próprios defeitos., Quando alguém resolve fazer o mesmo o caso muda de figura e a nossa honra parece irremediavelmente manchada.
Contudo, nesta onda de indignação, surge uma espuma de tiques xenófobos preocupantes. Sobre os brasileiros em geral, sobre os brasileiros a fazerem piadas com os portugueses, sobre os brasileiros que vivem em Portugal. Conheço alguns, abomino uns quantos, admiro outros mais. Tal e qual como os Portugueses: tantos admiráveis quantos execráveis. Não existe regra e se existisse acreditaria na maioria da excepção. Não tenho paciência para o discurso do povo irmão, nem para a conversa do aqui me sinto em casa, tal como se estivesse no Brasil, tanto mais que a minha avó era de Trás os Montes e eu amo este país. Acontece que esse mesmo Brasil é o país de tantas outras coisas de tantas pessoas que aprendi a admirar e a tomar para referência. Resistamos pois à tentação de tomar partes pelo todo, de olhar só para a porcaria da árvore.
E também caramba, se servir de atenuante, aquela mulher foi namorada do Sássá Mutema e deve ter estado apaixonada pelo Toni Ramos nalgumas 15 novelas. Parecendo que não, essas coisas deixam marcas.

quarta-feira, outubro 14, 2009

Alegria

Segundo o Jornal de Notícias, o bispo da diocese de Leiria e Fátima, quer "peregrinos alegres na visita papal".
Não estranhem portanto se as estradas nacionais e municipais estiverem cheias de peregrinos alegres por alturas de Maio

segunda-feira, outubro 05, 2009

Ei Siiiiilver

Depois de assistir às seis aulas das seis crianças que eu tinha levado e de tentar controlar uma réstia de alergia durante quase duas horas lá chegou a minha vez. Cheguei-me ao cavalo para mais uma aula de volteio e perguntei ao professor se era para subir sozinho para o dorso do animal ou se ele me ajudava. O homem que tinha não sei quantas pessoas à espera só ouviu a palavra sozinho e ficou ali uns segundos com aquela cara de tem-te não caias. Acabou por dizer. Hoje faz a aula sozinho sim senhor. Vai montar a princesa. Ai jesus cristo que aquilo até me soou mal, mas não caí na piada brejeira e fácil. Disse-me como é que se subia para um cavalo com estribos ou lá o que é, ensinou-me como é que se seguram as rédeas, deu-me um espécie de uma vara para a mão "para o pôr a trote" e conduziu-me até ao recinto das aulas. Num repente lá estava eu pela primeira vez em cima da sela, em vez daquelas almofadas das aulas de volteio e de rédeas na mão e a Princesa a passo. "Que raio e agora? Afinal como é que isto trava? Onde é que se acelera ? E para virar, carrega-se onde ? Acudaaaaaam-me". A Princesa estava em modo cavalo automático e andava a passo, atrás dos outros cavalos às voltas naquele rectângulo. Demasiado próxima da cerca para o meu gosto. Volta não volta o estribo roçava nas tábuas e eu estava a ver a minha vida a andar para trás. Quando passava perto dos Marias ouvias frases de incentivo:
"Ganda lata. Nós até temos mais uma aula que ele"
"Já viste a sorte? Eu também quero andar sozinho"
De repente o professor no meio do rectângulo desata aos berros:
"André já te disse para endireitares as costas e colocares os ombros para trás. Tu não ouves o que eu te digo"
Estava eu preparar a minha mais polida resposta, qualquer coisa do estilo "Disse-me mas foi os tomates. Eu nem sei como é que esta merda se trava quero lá saber das costas e dos ombros", quando decido olhar para o pedagogo equestre. Estava de costas para mim a gritar para outro cavaleiro que por um infortúnio também se chama André. Lá continuei no meu modo Cavaco Silva: com as rédeas na mão, sem saber que uso lhes dar e em silêncio absoluto. Foi então que o professor me corrigiu, desta vez era mesmo para mim, porque me chamou Senhor André e disse duas ou três coisas adequadas à minha experiência: "Tem que por as mãos mais para baixo, agarrar as rédeas mais à frente e pode começar a andar a trote."
Fazia sentido porque já tinha três cavaleiros atrás de mim à espera que eu andasse um tudo nada mais depressa, embora eu lhes tenha dito que não fazia a mínima ideia como é que se acelerava.
Mandei uma chibatada no bicho e eis que o estupor desata a trote e aquilo parecia-me já a velocidade da luz, mas com efeitos imediatos no rabo e sabe Deus onde. Volta não volta o professor lá me dava umas indicações até que por fim disse que era para ir passear lá fora até ao portão da quinta e depois ir arrumar a Princesa no picadeiro. Eu e mais outros dois, e mais uma vez acredito que o animal tem piloto automático. Neste passeio estava também o outro André e aproveitei logo para tirar dúvidas sobre pisca-pisca e inversão de marcha. Fiquei a saber que a Princesa tem mau feitio (Confere) e que pode dar coices (Confere), o que me deixou ainda mais descansado ali em cima.
Findo o passeio lá fomos estacionar nas boxes e aprendi a desemparelhar sempre de olho na traseira da dita Princesa. Saí de lá de ego inchado e com a felicidade das crianças. Cheira-me, contudo, que depois disto, e a menos que esteja outra vez uma fila de espera gigante para o volteio, vou voltar para as aulas tipo carrocel à volta do homem. Tomara que não.
Da próxima vez queria montar a Pamela (Panela na versão do António Maria) - é mais elegante e tem melhor feitio que a Princesa.

segunda-feira, setembro 28, 2009

Episodio I, II, III e IV

Episódio 1

- Pai. Porque é que os homens ficam com a pila dura de um momento para o outro.

- Porque a pila tem umas cavidades, uma espécie de casinhas, que se enchem de sangue e isso faz a pila ficar dura

- Está bem. Mas o que é que a faz ficar dura num instante?

- Acontece quando sentem alguma coisa muito boa que lhes dá muito prazer

- Por exemplo, a comer esparguete?

Episódio II

- Pai, as casas de banho das senhoras têm este caixote porquê?

(a razão pela qual eu o levei à casa de banho das senhoras não interessa para nada)

- Para deitarem os papéis aí dentro.

- Os papéis deitam na sanita pai. Não é para deitar os pêssegos?

- Os quantas ?

- Os pêssegos. Aqueles cromos que elas colam no rabinho.

Episódio III

- Ó Manel tu não sabes o que é um OVNI?

- Sei sim é uma nave especial.

Episódio IV

- Pai, sabias que a avó disse que ia votar no Sócrates porque ele era esforçado?

- Não sabia.

- E o avô respondeu que ele era esforçado como o Baltazar.

- Baltazar … Baltazar

- Ó pai. Aquele que era o chefe há muito tempo, e não deixava ninguém discordar com ele.

- Ahhhhhh. Já sei de quem falas. Não era bem Baltazar.

terça-feira, setembro 15, 2009

O GOVERNO É MEO

A bem a bem, deviam inverter o sentido do estado social para o estado poupança reforma. Esta lógica de andar a descontar para benefício de outro foi muito mal engendrada. É muito socialista. Já para não falar dos impostos que anualmente são redistribuídos em rubricas com pouco sentido no orçamento do estado.

Proponho que o próximo governo PSD-PS, ou PSD-CDS-PP, ou PS-CDU, ou PS-BE, ou PS-CDU-BE, ou PS-CDS, ou PS-CDS-PP promova, à semelhança do fazem os operadores de telecomunicações, campanhas de descontos para a segurança social, ou mesmo para o pagamento de impostos, mais de acordo com os tempos modernos. Faziam uns pacotes de descontos/impostos e o contribuinte escolhia em função das sua consciência:

Pacote Saúde- Justiça a 19,99 €

Pacote Saúde - Educação a 17,99 € - para quem dispensa a justiça ou faz justiça pelas próprias mãos

Pacote GOLD: Saúde Educação e Justiça Ilimitada das 21h às 7h – 38,55 €

Pacote Gold com Subscrição da SS 1 (pensão de reforma) , SS2 (baixa por doença) e SS3 (subsídio de desemprego) – 59,99€ *Oferta da Educação Platinum (aulas leccionadas por professores contentes com a reforma educativa) a um dos membros do agregado familiar)

Opção CDS-PP - custo adicional de 49,99 – o dinheiro dos respectivos descontos não é utilizado na interrupção voluntária da gravidez, nem na recuperação de toxicodependentes, nem no rendimento mínimo garantido. * Brinde oferta de um espoliado ou de um ex-combatente do ultramar

Opção BE – custo adicional de 49,99 – o dinheiro é canalizado para subsídio de casamento entre pessoas do mesmo sexo e não será utilizado na defesa nacional, na promoção de eventos de tauromaquia na AR, nem no pagamento de reformas a quadros superiores, administradores e políticos do PS, PSD, CDS-PP * Manuel Alegre não incluído


 

Fica aqui o meu contributo.

segunda-feira, setembro 14, 2009

Nem 8 nem 80

este blogue passou do estado de asfixia democrática ao estado de diarreia verbal. Estou a ver o prós e contras e num repente sou incapaz de fazer a contenção de sólid... de palavras. Vou tomar Imodium

Boatos de Campanha

Então o Sócrates para além daquilo da engenharia, agora queria matar o pai e a mãe para ficar órfão ?

Pára tudo

Na mesma noite ouvi:
1. Manuel Monteiro dizer que estava de acordo com Garcia Pereira
2. Garcia Pereira dizer que a china era social fascista
3. Carmelinda Pereira dizer que se devia proibir os despedimentos
4. Carmelinda Pereira dizer que provavelmente o POUS não vai ganhar as eleições
A RTP, desta vez, conseguiu uma grande alternativa à estreia do Gato Fedorento.

À Cautela

... não tenho escrito grande coisa. É que não quero que a pegada ecológica deste blog seja muito marcante.

sexta-feira, setembro 04, 2009

Isso é que era

... a bem a bem era o Jornal Nacional da TVI ser hoje apresentado pelo José Sócrates. Isso é que era bonito. Notícia de abertura:
"Manuela Moura Guedes retoma carreira artística com versão do hit dos anos 80 - Foram Cardos foram Sócrates"

segunda-feira, agosto 31, 2009

Estremunhado

Gosto da palavra apre. A minha avó Céu usava-a nos apertados limites da educação. Gostava de a ouvir quando ela a dizia irritada.

Apre. Chego sempre estremunhado de férias. Preciso de uns tabefes

sábado, agosto 29, 2009

Tomates

O problema das praia é o excesso de areia. Não gosto daquela matéria que aquece de uma maneira parva e que se enfia em locais de acesso tendencialmente considerado restrito. Nas virilhas e sabe Deus mais onde. A outra chatice da praia é a escassez de sombra, o que em dias de calor é uma merda porque, para se estar relativamente ao fresco, ou nos enfiamos numa sombra alugada a preços mais ou menos pornográficos ou nos sujeitamos a que nos caia uma arriba em cima. Por fim há o sal da água. A água da praia é bestial, e tem aquela agitação das ondas que lhe confere alguma graça, mas escusava de ser tão salgada. É que se a areia vai para as virilhas, o sal vai para as axilas, ombros e costas e um tipo nem dá por ela até à hora de vestir uma t-shirt e aquilo arranha ou faz impressão ou lá o que é, mas é chato.
A praia também tem gente e por vezes em excesso e, a meu ver, quase toda dispensável. Podiam pôr essas pessoas todas dispensáveis a fazer sombra às toleráveis e às imprescindíveis. Em vez disso parece ser um local quase democrático e toda a gente se estende em cima de toalhas e por baixo de chapéus de marcas de automóveis e de bebidas gasosas, ou de palhotas ou toldos. Mais recentemente inventaram uma espécie de iglos que confere alguma sombra mas que me dá a impressão de serem tão quentes que dá para assar leitões lá dentro. Ora toda esta gente com quem se partilha a areia, está sempre cheia de calor o que faz com ingira imensos líquidos, o que consequentemente provoca uma cadência urinária invulgar. E onde é que esta cadência se alivia ? No mar, pois então. É por isso que existem ondas. São uma espécie de autoclismo natural de proporções gigantescas.
Ora a praia dos Tomates tem tudo isto e muito mais o que, em alguns casos, lhe serve de atenuante. A sombra alugada pode incluir espreguiçadeiras com colchões. Existem brasileiros a vender bolas de Berlim, que na praia sabem 132 vezes melhor que em qualquer outro local, os mesmos brasileiros vendem bolachas americanas que eu duvido existirem em qualquer lugar do continente Americano, existem marroquinos que vendem réplicas de relógios de marca, de óculos de sol de marca e de malas de marca, existem outros marroquinos a vender túnicas e vestidos, e chineses que fazem massagens e tatuagens de curta duração. Estes vendedores animam a praia, garantem assunto para muita da conversa e sempre acabam por fazer alguma sombra.
Este ano, e a meio das férias, invertemos horários de praia e passámos a chegar à hora proibida dos raios UV's altíssimos, o que nos poupou a cena do estacionamento, e a sair na altura em que o salva vidas nos puxa o colchão debaixo do rabo porque tem que arrumar os ditos no barraco. Ora neste turno das 14-20, a praia transforma-se em algo muito melhor que a versão 9-13. Quanto mais não seja porque nesta hora as poucas crianças a aturar são as nossas e os filhos de poucos loucos como nós. E porque Lisboa é um bidé e os Tomates um penico, os loucos da frente eram conhecidos e os da frente esquerda conheciam os da frente e também conheciam amigos e amigos de amigos e vai daí, que não demorou dois dias de torra ao sol, já os miúdos todos tinham uma linha de montagem de pulseiras e colares, e acompanhavam os brasileiros, marroquinos e chineses no comércio itinerante entre toldos e barracos. Vai que este tipo de loucura promove o chamado convívio, o que também pode ser genericamente considerado positivo.
O único problema em conhecer várias pessoas ao mesmo tempo é ter que saber os respectivos nomes, mas ao fim de uma semana só houve um ou outro que se me escapou. Nada mau portanto. Muito boas companhias, e tardes bem passadas.
Além da areia não escaldar ao fim da tarde, ganhámos acesso a uma sociedade quase secreta de produção de caipirinha para os toldos ali da zona, servida perto do pôr do sol.
Até pode ter sido do efeito da cachaça, ou do fim da tarde, ou de vizinhanças muito boas ondas, mas este ano, a areia nem parecia querer grandes algazarras com as minhas virilhas.

quarta-feira, agosto 12, 2009

A Galope

Há uns quinze anos atrás, por alturas de um fim de semana de turismo rural, a senhora da recepção recomendou-nos vivamente um passeio a cavalo. Ora perante a total ignorância no manuseamento dos ditos, optámos por um passeio de uma hora de charrete. A coisa envolvia passear pela quinta e arredores e ver uns cromeleques e coisa e tal. Ao fim de um quarto de hora de passeio, vai que desato a fungar e a espirrar. "Malditos fenos, estupor da primavera" pensei. Vai que mais uns minutos, uma coceira nos olhos que não sabia o que fazer e a partir da meia hora de jogo, uns apertos na garganta que mal podia respirar. Finda a viagem, quais cromeleques, qual quinta, qual charrete. Não via nada com os olhos inchados, mal respirava e quase não tinha nariz. Tanto animal que eu não gostava, tinha logo que ser alérgico a cavalos.

Desde então cada vez que me aproximo de um bicho destes, ou ensaio um pequeno passeio, desato em tristes figuras. Casamento incluído que as tias octogenárias comentavam o meu grau de comoção à chegada à quinta, após um passeio de cinco minutos numa viatura equestre: "Ai o seu menino comoveu-se tanto, está com os olhos numa lástima". Ainda há umas semanas atrás num passeio por Sevilha fui feito parvo com uma fralda nas trombas para aguentar meia dúzia de quilómetros, e ainda assim saí antes do fim do trajecto.

E agora na semana passada, como que por milagre de Santa Bárbara (porque se acode nas trovoadas e se todos os cavalos se chamam Trovão, há-se ser esta a santa equestre), fui levar os miúdos a umas aulas de equitação e nem um espirro, nem uma asma, nem uma comichão ocular. Ora eu, que estava deserto para aprender, ainda fiz uma aula de volteio, e dois dias depois uma outra. Os Marias fizeram o mesmo e continuam. Está decidido:

Vamos desfazemo-nos dos peixes e dos aquários, damos um jeito ao escritório e compramos um cavalo lá para casa. Para passear na Alameda. Difícil será ensiná-lo a subir e descer do 3º andar sem elevador, mas assim que aprender pode levar as compras do mês para cima e o lixo para baixo. Aposto que perante esta mais valia até a Ana vai gostar da ideia. A Pipi das Meias Altas também tinha um em casa. Pode pastar na Alameda e vou ensiná-lo a cagar na janela da marquise. Sempre dá razão à vizinha da cave que não paga o condomínio porque os andares de cima lhe estão sempre a sujar o quintal. Ainda não sei que nome lhe hei-de dar. Talvez Mantorras Maria, que lá em casa é tradição o Benfiquismo e os Marias. Mais dois anitos e ainda organizamos corridas de obstáculos no quarto de brinquedos e touradas na cozinha. Com uma vaca em vez de um toiro. Com a quantidade de leite que eles bebem, justifica-se uma vaca na cozinha. Das malhadas pois claro.

terça-feira, julho 28, 2009

João e Maria

Agora eu era um guerreiro de espada na luta contra o dragão, agora era o cavaleiro de Cervantes e via gigantes no lugar dos moinhos, ou era o vento que os fazia agitar os braços, agora eu era capaz de voar até às nuvens e descer na velocidade estonteante, ou era só o pára quedas dos que se saltam de aviões coloridos e precipícios intermináveis, agora eu era capaz de suster a respiração e nadar no fundo dos mares e conhecer-lhe os segredos e criaturas bizarras, ou era escritor inspirado como se não tropeçasse entre as emoções e a folha de papel. Agora conseguia aniquilar todos os bandidos e fazer heróis em todo o mundo, agora não havia medos nem maus e as guerras eram com água e acabavam sempre com lanches cheios de guloseimas e gasosas. Agora eu falava com os golfinhos, com as águias e com as serpentes e era o mais rápido nos cem metros e na maratona, agora marcava golos improváveis e fazia defesas impossíveis, agora brincava no cimo das ondas de todos os metros de altura e conseguia ir e voltar da lua, agora dançava nos teus braços e adormecia a sorrir como crianças felizes.
” Agora eu era o herói e o meu cavalo só falava inglês…”

sexta-feira, julho 10, 2009

Travessa do Calvário

Notou-lhe a presença cada vez que arrumava o carro naquela rua. Já a tarde se fazia noite, e sempre o mesmo quadro, assim como se de um ritual. Do velho carro de compras que arrastava durante o dia, montava abrigo para mais uma noite. As arcadas do prédio e os cartões armados, castelos de cartas de um qualquer jogo de azar, conferiam-lhe débil refúgio e ridícula privacidade para a noite. Não lhe sabe idade, advinha-lhe menos que metade de um século, nunca lha perguntou. Também porque haverá? A higiene possível é feita em gestos escondidos e delicados, como um gato. Por fim solta um imenso cabelo que ainda brilha e já deitada, outros cartões para coberta. Viu-a tantas vezes neste ritual. Nunca lhe dirigiu palavra. Nunca lhe soube o sorriso.
A manhã traz outra luz e se cedo, outros rituais. Os cabelos enrolavam-se de novo e presos em novelo, sustinham-se por mais um dia. Passou por ela quando levava o filho à escola, ali mesmo, na rua de cima. Disse-lhe “bom dia”. Na volta das palavras saiu um bom dia cheio de música e a pergunta ao petiz “Então vais para a escola?”. Escancarou um sorriso. Sincero, dócil, e maltratado. Desde esse dia, eram assim as palavras e os encontros. Nunca menos que um bom dia ou uma boa noite, nunca mais que um sorriso. Sempre a vontade de saber que tropeções a levaram ali, na confortável distância de não se envolver para não cuidar. E se de noite, a chuva caía à bruta, ou o frio gelava os ossos, nunca lhe vinha à ideia a infeliz debaixo das arcadas. Talvez no dia seguinte se perguntasse como havia ela passado a noite, mas nem sequer partilhava com alguém o formigueiro da inquietude.
Por vezes pensava numa ajuda ou numa conversa, nunca lhe parecia oportuno ou adequado. “Se calhar até leva a mal” pensava, como que a desmobilizar qualquer ímpeto de caridade. Ficou-se sempre por ali, a troca afável de um cumprimento e um sorriso. Cómodo não é?

terça-feira, julho 07, 2009

segunda-feira, julho 06, 2009

Confirma-se

A próxima oftalmologista que me espetar uns gatafunhos minúsculos numa longínqua parede e a seguir à minha magnífica prestação, resolver perguntar, "Afinal quantos anos é que você disse que já tinha ?", leva com as lunetas_ridículas_cheias_de_encaixes_para_lentes nos cornos.
Só o não fiz, não resolvesse ela, num acto de insensatez, receitar-me lentes de contacto e eu ter que as por e, de cada vez que o fizesse, à conta dos tremeliques, ficar com a geleia dos olhos espalhada num raio de dois metros.
Não gosto mesmo nada quando se confirma, que está relacionado com a idade.

quinta-feira, julho 02, 2009

Ca nervos

Ora eu não podia ir à festa do loiro dos caracóis, porque à tarde tinha uma reunião do tipo "se me baldo bem me posso queixar de terem decidido o contrário do que eu quero". Posto isto nada mais natural, que para compensar a ausência, levasse comigo o caracóis a assistir à festa matinal do Sirenes. Elas bem me avisaram que estava em vigor uma regra que impedia irmãos de assistir a festas de irmãos, e que a bem a bem, era fazer-me de parvo, despir o bibe ao dos caracóis e roubá-lo para ir assistir à festa do Sirenes. Eu que tenho o QI de um poste telefónico, resolvi ir pedir licença à directora. Desisti quando o diálogo ia no ponto:
"Se o menino for assistir à festa do outro depois não pode entrar na escola durante a tarde"
"Então se não entra na escola à tarde não vai à festa. Levo-o comigo e se decide que ele não pode ir à própria festa depois falamos sobre esse tema."
"Não leva nada o menino"
"Eu tomo conta dele."
"Não leva o menino que foi decidido que não há irmãos a assistir às festas dos irmãos"
"Eu não decidi nada"
"Mas decidiu a escola"
"Não reconheço competências à escola para decidir sobre questões de irmãos"
"Mas é uma questão da escola, portanto decidiu assim e assim será"
Várias litros de ar engolidos em seco para não dizer palavrões e não ultrapassar os limites. Correndo o risco dos caracóis serem impedidos de participar na festa de fecho do ano, resolvi colocar o rabo entre as pernas e falar com o loiro para lhe dar as novas.
Por falar em rabo, e assim num repente aquele lembra-me o Pavilhão Atlântico, a mulher tem o dom de me irritar.