quinta-feira, julho 02, 2009

Ca nervos

Ora eu não podia ir à festa do loiro dos caracóis, porque à tarde tinha uma reunião do tipo "se me baldo bem me posso queixar de terem decidido o contrário do que eu quero". Posto isto nada mais natural, que para compensar a ausência, levasse comigo o caracóis a assistir à festa matinal do Sirenes. Elas bem me avisaram que estava em vigor uma regra que impedia irmãos de assistir a festas de irmãos, e que a bem a bem, era fazer-me de parvo, despir o bibe ao dos caracóis e roubá-lo para ir assistir à festa do Sirenes. Eu que tenho o QI de um poste telefónico, resolvi ir pedir licença à directora. Desisti quando o diálogo ia no ponto:
"Se o menino for assistir à festa do outro depois não pode entrar na escola durante a tarde"
"Então se não entra na escola à tarde não vai à festa. Levo-o comigo e se decide que ele não pode ir à própria festa depois falamos sobre esse tema."
"Não leva nada o menino"
"Eu tomo conta dele."
"Não leva o menino que foi decidido que não há irmãos a assistir às festas dos irmãos"
"Eu não decidi nada"
"Mas decidiu a escola"
"Não reconheço competências à escola para decidir sobre questões de irmãos"
"Mas é uma questão da escola, portanto decidiu assim e assim será"
Várias litros de ar engolidos em seco para não dizer palavrões e não ultrapassar os limites. Correndo o risco dos caracóis serem impedidos de participar na festa de fecho do ano, resolvi colocar o rabo entre as pernas e falar com o loiro para lhe dar as novas.
Por falar em rabo, e assim num repente aquele lembra-me o Pavilhão Atlântico, a mulher tem o dom de me irritar.

segunda-feira, junho 29, 2009

Alen Tejo e os Quarenta da Maria

E vai que ela fez 40 anos, o que é bom. A quarentena é chata, a quaresma é assim assim, mas a quarentona é bestial. E como fez esse disparate de anos resolveu fazer um piquenique com os amigos. E vai que ela é amiga da Inês, e da Joana, e do Pedro, e da Mercedes, e do Francisco, e da Ana, e da Bárbara, e da Leonor, e da Madalena, e da Rita, e do Gonçalo, e da Sofia, e do Rui, e da Alexandra, e da Bibão, e da Maria, e do João, e do Luís, e a bem a bem era juntá-los a todos numa ilha. E que se há terra que agora tem dado ilhas que é um disparate, é ali a zona do Alqueva. E se no meio da água surgem as ilhas, nas margens surgem os turismos de habitação e os turismos rurais e vai que a moça que já não vai para nova mas está ali que não há isto que se lhe aponte, além de um piquenique, resolve juntar tudo num destes locais paradisíacos. E não contentes com a multiplicação, todos se exponenciam na descendência, Deus os abençoe a quantidade de Marianas e Margaridas que entretinham os coisos Marias, os meus inclusive. E juntar e jantar e jantar e dançar e dançar e beber. E vinhos e vinhos.
E elas, que não são boas de assoar, resolvem pegar-lhe no marido e reinventar o Grease de surpresa com coreografia e figurinos preparados . A pobre, com receio de ir a banhos na piscina, nem lhes notou as vestes exageradas e os cabelos à época. A bem, a bem só deu pela surpresa, já o musical dava de si. E assim foi o fim de semana a festejar quarentonas, que a cá de casa também incrementou um como de costume por estas alturas. Falar em números houve quem andasse a chamar números aos outros como se de signos se tratasse. Tu és um sete, ou tu és um oito, ou tu nem sei bem que raio de número és. Parece haver uma ciência da numerologia e de um a nove algum há-de de ser. Fez-me lembrar a Mara Abrantes mas em versão números “Diga em que dia em que mês você nasceu para ver se o seu signo combina com o seu”. O melhor é estar calado que, se comparada com a Bree já foram Carmos e Trindades, se lhe insinuo Mara Abrantes tenho dias contados. Falar em Carmos e Trindades, não é que há quem ache que o 25 de Abril e o PREC foram exagerados? Quais exagerados ? E eu ali feito camarada, a expor a minha costela de homem de esquerda, não fora a caraça de Hugh Grant… E vinhos? Já falei do vinho? E do grupo de cantares Alentejanos a cantar os parabéns? Tratando-se de versos longos, começaram na sexta à noite e no domingo de manhã já iam no segundo verso. E o vinho ? Já falei do vinho ? Falar em vinho, eu nem sou de cortes e costuras, mas a Mara_Abrantes_de_um_a_nove chegou a estender-se no chão de soca orientada às estrelas, e seja o diabo cego, surdo, mudo e tetraplégico se não chegou a ter a cabeça envolta em panos brancos.
Findo o domingo, ficam histórias, risadas e os Marias a perguntar se podem passar a fazer anos sempre ali. Falar em Marias. Parabéns Maria e que feliz fiquei de festejar-te quarentona.

sexta-feira, junho 26, 2009

Desculpas

Agora quero ver se o Sócrates vem com desculpas esfarrapadas a dizer que não, não fazia ideia que o Michael Jackson ia morrer e tal.

terça-feira, junho 16, 2009

Sonho de Sevilha

O turbilhão das cores transportar-nos àquele mesmo hotel, o estranho homem da recepção estranha a nossa fala, e reservo-nos sem estranheza toda a cidade. Em Sevilha um velho adorna a varanda, sobes a escada que a ladeia, acertas o manto da procissão, para que a virgem adorada, se comova ao passar. Vejo os teus olhos nas cores da praça, e já na arena entre aplausos e olés, dou uma volta de consagração, e na entrada esperas-me no coche que nos mostra a cidade e as cores. A imponente catedral que se giralda de torre em céu, e aos nossos pés tantas paisagens num persistente Maludar, falta-me o ar sobra o calor, e para lá dos quarenta e dois graus, saltamos pelos toldos que sombram estreitas ruas. Lá em baixo o frenesim dos turistas e as mulheres gordas que lhes lêem destinos certos nas palmas das mãos, como na magia. Mágica a ilha em que nos molhamos e como nos molham os risos e gargalhares. Somos todos crianças felizes e nervosas nas descidas em que nos falta o chão. Levam-nos rápidos de volta à muralha e ao calor, jogamos às escondidas nos pátios e puxa-nos o som das cordas, à batida das palmas e ao sapatear. Mulheres de danças sensuais arqueiam o corpo e ainda cores. Sabemos de cor aquele calor e não baixa dos 40 graus. Cerveja gelada e à pressão num esplanada cheia de artistas, fazem em quadros tanta bravura. Fraca figura, que corta em ritual, finas fatias de iguarias despertam nossos paladares. Rendido aos poucos o calor, é outra a luz e outras sombras, candeeiros de ruas, e danço descalço sob o pulverizador. Vence-nos a cidade tórrida da beleza das cores e músicas.

segunda-feira, junho 08, 2009

Eleições

Eu que desta vez fui votar no fecho das urnas, e apesar dos vómitos do sirenes dentro do carro, a abstenção lá de casa foi de zero por cento. Os senhores da mesa bem estranharam o cheiro a vomitado, mas não me impediram de exercer o meu direito.
Esforcei-me portanto e depois apresentam-me estes resultados: "Quatro vitórias e um funeral" Que coisa mais parva. Não havia maneira de perderem todos ? Ou de ganharem todos excepto os irritantes. O que deixa de fora ... 'xa cá ver ... todos. Podemos repetir ? Eu queria votar no Quique Flores e enganei-me.

quarta-feira, junho 03, 2009

Catanos, camandros e caraças

Isto anda confuso, mas a coisa vai ao sítio. Ele é as festas da escola que cada vez que o bochechas tem uma actividade adicional é mais um número com um ou mais zeros à frente e no fim um símbolo que parece um “E” redondo e com um traço suplente. Depois as cadelas que foram de uma creche para outra mas com o desencontro de datas acabaram por pernoitar pelas minhas bandas, Deus nos acuda o que aquelas bichas fazem, que até uma barra de sabão resolveram comer, cheguei mesmo a pensar que o melhor era embalsamar os animais assim com uma pata para cima como se preparassem para atacar, em vez disso quando foram à rua até bolas de sabão sairam. Falar em Deus, o do meio, o loiro de caracóis, comungou pela primeira no Sábado e no Domingo já estava a pedinchar para ir lá novamente que a cena do corpo de Cristo lhe agradou sobremaneira. Falar em Deus a Ana que tinha duas avós, no Domingo passou a ter só uma e vai daí eu que fui fazer a oração dos fiéis na Terça Feira na missa de corpo presente, me enganei no nome da senhora e em vez de pedir pela que estava na caixinha de madeira mesmo ali à frente resolvi pedir pela outra que ainda está de saúde mais ou menos decente. Essa missa de corpo presente das 9 e meia da manhã seguiu-se à missa das famílias das 8 e meia na escola do bochechas que ainda não recebi a respectiva cotação mas não há-de tardar. Já aqui falei da inteligência suprema de casar no dia da criança porque os selvas querem sempre ir a qualquer coisa parecida com uma feira popular e neste ano em particular ainda havia um velório e portanto a segunda-feira foi uma de uma animação ímpar. Já terça, na terapia da fala, o loiro de caracóis ao receber o TPC, depois de ter passado a fase da bauauaica de uís uauande, que consistia em escrever palavras com ‘r’ inicia um diálogo com a terapeuta:
- O Manel lembra-se do trabalho que leva para casa?
- Sim. Escrever palavras com erre?
- Não é bem erre.
- Pois. É com “re”.
- Isso.
- Como caraças.
- Caraças é um bom exemplo.
- E como car....alho.
Peguei nele e fugi dali para fora e agora só lá volta quando o tema for “palavras só com vogais” como ui , ao, ai e au.
A juntar a isto a porcaria da saída da CRIL na segunda circular avançou uns quinhentos metros e o qi dos automobilistas recuou em conformidade pelo que a segunda circular e a radial de Benfica estão sempre uma animação, e como eu também sou um bocado aparvalhado, só me lembro que o melhor é ir pela A5 depois de já não poder sair da fila.
Olha que no meio disto tudo não falei do sirenes. E mais o estupor do sirenes que não se cala e está sempre a pedir água deve estar a caminhar para a diabetes. Tenho dito.

sexta-feira, maio 22, 2009

Oração

Meu Deus faz com que se alguma vez tiver Alzheimer, nunca me esqueça do endereço do youtube

quinta-feira, maio 21, 2009

Submarino ao Fundo

Um décimo do que eu fazia. Saiba eu que fazes um décimo do que fazia na tua idade. A nespereira até lá acima em casa da Avó Céu, ou descer pelos tubos que suportavam a escada de serviço desde o quarto andar até ao rés do chão, ou subir as mesmas escadas sempre pelo lado de fora do corrimão, ou subir as paredes do corredor e passar por cima das portas , ou andar nos telhados dos prédios em frente à Igreja do Bairro, ou entrar em casa pela janela aberta da marquise. Sonhe eu que chegas a estes calcanhares, e falta-me imaginação para a reacção. Não obstante, podes partir-te um bocadinho, mas só mesmo um bocadinho e daqueles que são de rápido remédio. Um dedo vá. A cabeça pronto. Ou o queixo, que eu também parti. Um dente é discutível, só se for daqueles que ainda não são definitivos, ou que o sendo estão sentados nos lugares mais baratos, segundo ou terceiro balcão. Os dentes que estão na plateia VIP não são para partir, definivamente não pode ser. Sobretudo esse, o do meio, em cima, a favola maior. Logo esse que substituiu muito a custo, um outro que, com um ano, resolveste enfiar para dentro numa queda e que portanto andou morto até cair, dando lugar a essa fabulosa favola que agora está … partida ??? Favola partida é uma chatice João Maria, é como partir uma das tuas bochechas. É um cartão de visita. Tu vai-me preparando uma história comovente e heróica, que eu estou capaz de descontar o dinheiro de um pivot na tua mesada … ora fazendo as contas, em 400 semanas o caso fica sanado.

quinta-feira, maio 14, 2009

Não sei se vais lá ...

...
"é que Jesus está vivo, mas também está morto. Metade está vivo e a outra metade está morta"
Nisto desenha uma linha imaginária entre a cabeça e os pés e continua
"... deste lado aqui está vivo, deste lado aqui está morto e nem tem ossos nem nada, é só a alma"
e finge que se desconjunta todo.
Sirenes, hás-de ser considerado apto para a primeira comunhão lá para os trinta e mesmo assim ....

sexta-feira, maio 08, 2009

Direito de Resposta

Hoje, na fila do euromilhões, numa daquelas papelarias de centro comercial apinhada de gente, a senhora da caixa dirige-se alto e bom som para o senhor que folheava a Playboy:
- Ó meu senhor, é proibido consultar a revista. Está aí um cartaz a dizer isso.
Olha que história, uma bancada inteira com a playboy cheia de silicones e o homem ia lá reparar no cartaz. Encolheu-se até onde podia e pousou a revista no seu devido lugar.
Não consegui, mas apeteceu-me tanto, mas tanto dizer bem alto:
- Também não é caso para tamanho chavascal, o senhor só estava a ver as gordas.

quinta-feira, maio 07, 2009

Filhos Legítimos

Estranhei logo quando fui inscrever o primeiro na creche, antes ainda dele nascer. A directora da dita chamou-me Pai, ou pai não interessa. Até fiquei com pena da senhora. Olha teve um deslize e chamou-me pai, deve estar mais atrapalhada que eu, vou fingir que não notei. Afinal não. De há dez anos a esta parte tem sido uma prática corrente, e à medida que o número de filhos aumenta, o número de pessoas que têm a mania de me tratar por pai aumenta também. Auxiliares, cozinheiras, enfermeiros, médicos, educadoras, professoras, lojistas e babysitters tratam-me por pai. Que espero que não por Pai. E logo eu que achava que só tinha rapazes, volvida esta década vejo-me rodeado por uma catrefada de filhos, a maior parte deles do sexo feminino e algumas mais velhas do que eu. E estão mesmo convencidas que são minhas filhas. Legítimas, porque também chamam mãe à minha mulher, e avô e avó ao meu pai e à minha mãe. Ora isto não é um engano, é mesmo uma profunda convicção que são filhos e filhas. Será que contam viver lá em casa? É que o espaço já não é muito e o que eu gasto em cerelac, leite e gromittis nota-se no PIB. Talvez não contem muito com isso porque depois não agem propriamente como filhos. Não nos saltam para o colo quando nos vêem, não aparecem a meio da noite a pedir para se deitarem ali porque tiveram sonhos maus e não reagem nada bem quando lhes tento dar banho. Não querendo tirar partido da situação, eu até os acolho em casa porque a um filho não se vira as costas, mas pelo menos dêem-me direito ao respectivo abono de família. Salvo seja.

quarta-feira, abril 29, 2009

Quotas

- Nesta PlayStation 50 % é tua e os outros 50 %, são 25% meus e 25% do Manel. Certo ?
- E o António ?
- Então 40% teus, e 20% para cada um de nós.
- Nem pensar. Não fico abaixo dos 50%.
- Então 50% teus, 25% meus e 25% do Manel. Damos um comando qualquer ao António e ele acha que está a jogar, nem nota que não está ligado.
- Acabou. Esta Playstation é toda minha. Minto, 50% é da mãe. Comunhão de adquiridos meus caros.
- Diga pai?
- Calem-se e joguem antes que eu me arrependa.

Velho Francisco

Sentou-se no café. Não estava dia que justificasse a rua atravessada e a jogatana com os outros velhos nas mesas do jardim, à beira do coreto. Nem a esplanada, cruzes canhoto. Incomodava-o a impertinência do inverno além das fronteiras de Março. Não era só pela ausência de cor, ou a sensação de frio. Era a inércia convidada para todos os lugares. Os ossos que pareciam mais rijos, as articulações mais teimosas, os amigos que não arriscavam os lances de escadas, até o homem dos jornais que não lhe devolvia as deixas. Homem de poucas conversas nos dias assim. E dos sons do bairro, pouco mais que o agitar das copas das árvores, dos automóveis e passos apressados. Pediu chá e uma torrada. Sabia-lhe bem e a ocasião não lhe pareceu despropositada. Folheou o jornal e deixou-se levar pelo que lia, na sua maioria, ou disparates ou coisas que já sabia pela televisão logo manhã cedo. Envolveu-se de tal forma na leitura que tardou a aperceber-se a luz lá fora parecia mudada. Olhou para lá da rua e era ver os verde a desmultiplicarem-se em múltiplos tons, e as formas a clarificarem contornos. “Traga-me a conta sr Luis, que isto parece querer arrebitar”. Deixou umas moedas na mesa e saiu. Até as pernas pareciam responder de outra forma. Passou pelo quiosque e o homem dos jornais provocou-o para a conversa “Já viu isto? Agora são os porcos que se constipam”. Queria lá ele saber dos porcos, queria era apreciar o jardim, já com o chão recortado de sombras e sol, como peças de puzzle desenhadas nos caminhos, o agitar das árvores abafado pelo frenesim dos miúdos no parque e os sussurros aqui e ali de vizinhas cuscas, o som de passos curtos das empregadas vindas da praça para o almoço das patroas que o senhor engenheiro deve estar para chegar. Atravessou o jardim - até os patos já cá andavam fora - passou o coreto e sentou-se ao sol. A mulher das flores, olhos de vida e sorriso sincero, meteu-se com ele “Boa Tarde Sr Francisco, aposto que é hoje que me compra uma rosa para me oferecer”. Sorriu-lhe de volta.
- Anda lá Francisco, oferece uma rosa à Dona Gracinda. Olha que ela está caidinha por ti
Era o Manuel, antigo companheiro da Sueca.
- Deixa-te de coisas Manuel, e senta-te aí. Cheguei a ver isto mal parado. Os outros ?
– Dá-lhes um tempo, que já não vão para novos ao contrário de nós. Enquanto isso vamos a uma bisca.

segunda-feira, abril 20, 2009

Precisamos de uns novos donos

Além do vazio , a perda de há dois posts atrás, deixou três velhotas numa situação difícil.
Quando o meu sogro adoeceu, as três cadelas que ele tinha, foram para um canil perto da Malveira e neste momento não sabemos que fazer com elas.
A Pipas tem 14 anos e é a mais clarinha de todas. Já não ouve, mas continua cheia de mimos e de vontade de brincar.
A Clara tem 10 anos e é a maior de todas. Não dá grandes confianças no início, mas acaba por ser grande companheira.
A Tata também tem 10 anos, é irmã da Clara, e é a mais gorda e mais gato das três. Gosta de preguiçar e está sempre a pedinchar festas.



Neste momento o que preciso é de qualquer tipo de ajuda para que consiga arranjar-lhes novos donos: sugestões, contactos, divulgação deste post por mail, enfim algo que permita à Pipas, à Clara e à Tata ganhar uma nova vida.

Obbrigado a todos. O mail para onde podem fazer chegar alguma informação ou novidade é o aqui da caixa de costura: afrazao@gmail.com

Chantagista

Ó sirenes, tu vê lá se não te chibas. Passo a explicar. A avó Lídia, na verdade, é bisavó como tu sabes e está muito velhinha e tem momentos de lucidez. E em certas idades há notícias que não devem ser dadas. É discutível eu sei, mas ainda não podes decidir sobre esse tema.
Por outro lado eu sei que tu gostas muito de atenuar a tua condição de terceiro e de ínfimo lá de casa, ganhando corridas aos teus irmãos e sendo o primeiro em determinadas actividades. Mas não posso tolerar chantagens. Não são admitidas chantagens lá em casa. E dizeres, do cimo dos teus quatro anos, nada inocentes
"Ou sou o primeiro a ser servido de panquecas ou vou dizer à avó Lídia que o seu filho já não existe porque morreu" é claramente um caso de chantagem.

terça-feira, abril 14, 2009

Ainda era cedo pá

Já te tinha adivinhado assim no olhar vazio. O que foste tu fazer homem.? Percebeste ao menos que ninguém ali estava para despedidas? Viste-os os olhos perdidos dos teus amigos à espera de explicações no inexplicável? Viste a tua filha entrar na casa vazia, sem perceber a tua ausência, a vasculhar memórias que atenuassem dores. E os teus netos homem? Agora é que eles estão a chegar aquela idade que querias. A idade de os levares às pescarias, de ires com eles de madrugada à lota para o peixe fresco, de os ensinares a cozinhar, e a jogar Poker e Xadrez, de ires com eles às flores para os canteiros de São Martinho. Eles ainda tinham tanto para aprender contigo, homem. Todos tínhamos, mas eles então. Sei que a tua princesa grande já nem estava, mas caramba rapaz, foi também ela quem nos ensinou a lutar sempre até ao fim. Bem sei que estavas refilão, mas nunca te conhecemos doutra forma, e foi assim que aprendi a gostar de ti. E olha que foi gostar que se farta. Deves ter ficado chateado com o que te disse naquela noite em que resolveste que não querias ser internado, mas se soubesse o que sei hoje, tinha dito o dobro ou o triplo até te convencer que não podias ir para casa naquele estado. Desculpa lá a maneira como te falei, mas era-te tão urgente seres internado. Agora não vale a pena dizer-te tudo isto, que a tua mulher deve-te estar a dar uma desanda como já não ouvias há muito. Agora só vale a pena dizer-te que te sentimos tanta falta A falta que os filhos sentem de um pai, que os netos sentem de um avô e que os amigos sentem dos amigos. E sim é mesmo assim, as bochechas do João são iguais às tuas, e no génio do Manel e no gargalhar do António. E deixas-lhes também a doçura deles todos e da rainha lá de casa. A tua filha, heroína nesta história, levou o álbum das fotos lá para perto de ti porque ninguém se queria despedir, só queriam dar-te um abraço e um beijo. Havias de os ver felizes a recordar-te, é que ainda não era altura para despedidas. Ainda não era agora. Ainda era cedo.

terça-feira, abril 07, 2009

Lembro-me

Apego-me a memórias. Tantas vezes nem as sei, quando as cristalizo, tenho-as como se têm memórias e guardo-as como se guardam memórias. Á mão de semear. Não as faço cabides para pendurar as roupas do presente, ou para o ludibriar em alusões ao que já foi, não faço dias em sucessões geométricas. Quando lhes dou a vez, é a pedido dos sentidos. Sempre porque qualquer coisa ou por todas as coisas, os sentidos, as cores, os sabores, os cheiros, os sons. Lembro-me de cheiros quando os revisito sem querer e com eles vêm todos os sentidos. Lembro-me do cheiro da cantina do colégio em forma de castelo, e depois lembro-me das mesas, dos pratos, dos copos, dos azulejos e do elevador. Lembro-me do cheiro do soalho do ginásio e com ele lembro-me da ardósia, das cordas, das argolas, dos boques, dos plintos, e da sensação do peso do corpo sobre as mãos nas paralelas. Lembro-me dos sons, sons ordenados em cinco linhas, canções, e quando me lembro de canções vem tudo ao arrepio com pressa de chegar. Lembro-me do primeiro disco ouvido sem contar lhe contar as vezes, e de o ouvir ao vivo. O homem envergonhado lá ao fundo em cima do palco e a multidão com o dobro do meu tamanho, a voz imensa e a poeira. Lembro-me da poeira que me enchia as mãos e a roupa e do sorriso que me enchia a cara de o ouvir e quase o ver lá ao fundo, e o sono que já tinha. Lembro-me das canções. A memória das canções não é bem como a dos cheiros, ou a dos sabores, ou a das cores. É imensa.

sábado, abril 04, 2009

(des)Construção

"Seus olhos embotados de cimento e tráfego, beijou sua mulher como se fosse lógico, e flutuou no ar como se fosse sábado."
Mais do que a merda que os médicos me dizem sobre ti, é a merda do teu olhar que parece incapaz de dizer algo.

Algo me diz

.... que se desconjuntou tudo outra vez.

quarta-feira, abril 01, 2009

Hiper

As idas ao hipermercado, mesmo em modo toca e foge, são quase sempre animadas. Quanto mais não seja porque gosto de lhes adivinhar a vida só de olhar para os carrinhos ou para os cestos.
Ali na bela vista a população é diversificada e fico com a sensação que até as miúdas desdentadas das caixas ou os seguranças são meninos para me assaltar à saída. Preconceitos de gajo da classe média que resolve fazer compras no hiper às portas de Chelas.
A mulher da fila 36 gritava qualquer coisa ao miúdo que devia andar pelos nove anos. Liguei a super audição.
- Estás aqui está a levar um estalo nas fuças.
Era uma mulher gorda e grande e de ar rude.
- Mas que mania apanhastes tu agora. Levas uma chapadão no focinho. Deslarga-me as mamas.
Voltei a olhar. O miúdo esticava os braços e desatava a dar palmadas às mamas da gorda, como se estivesse a tocar tambor. A mulher limitava-se a ameaçá-lo e a desviar-se das investidas do jovem músico.
- Ó minha senhora mande-lhe com uma das mamas nas trombas que o rapaz perde os sentidos e se não perder a memória nunca mais se atreve.